Você se sente segura? Caminhando pelo seu bairro à noite, no trajeto curto até o supermercado, esperando sozinha no ponto de ônibus? Ou quando percebe um homem desconhecido, com olhares que invadem seu espaço, mesmo sem uma palavra dita — você se sente segura?
Eu, como mulher, não me sinto. Uso transporte público, frequento a academia, pego carros por aplicativo e, na maioria das vezes, não tenho a sensação de liberdade para circular pelos espaços urbanos sem medo. Essa insegurança não é exagero nem paranoia individual. Ela é coletiva.
A pesquisa Percepções e experiências das mulheres quando se deslocam pelas cidades, realizada em 2023 pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber, confirma isso. O levantamento mostra que 97% das mulheres temem ser vítimas de violência ou discriminação durante seus deslocamentos. Entre os medos estão assalto, furto, sequestro, estupro, importunação ou assédio sexual, agressão física, cantadas invasivas, olhares inconvenientes e racismo. O corpo feminino, ao que tudo indica, nunca circula neutro.
Nem na rua, nem em ambiente controlado
Mas e se estivéssemos em um espaço monitorado 24 horas por dia, cercado por câmeras, regras e vigilância constante? Estaríamos seguras? Ao que parece, não. Ao longo de 26 temporadas, a casa mais vigiada do Brasil registrou cerca de sete casos de assédio ou importunação sexual. Uso o termo “cerca de” de forma proposital: são os episódios que vieram a público e tiveram consequências diretas, como a expulsão de participantes.
Na vigésima sexta edição do programa, logo na primeira semana de confinamento, Pedro deixou a casa após encurralar Jordana na despensa. O caso foi investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, e a emissora informou que ele seria expulso caso não tivesse desistido antes. Nem câmeras, nem regras rígidas impediram a violência de acontecer.
Vigilância constante cansa
Se nem em um ambiente totalmente controlado estamos seguras, o que dizer da vida real, fora das telas? Seguimos mudando trajetos, escolhendo ruas mais iluminadas, avisando onde estamos, compartilhando localização no WhatsApp com amigas, andando com a chave entre os dedos. Estratégias de sobrevivência que viraram rotina.
Ainda assim, não estamos seguras. E viver em estado permanente de alerta cansa. Cansa o corpo, a mente e a alma. O problema nunca foi a falta de cuidado das mulheres — é a normalização da violência. Enquanto a responsabilidade continuar recaindo sobre quem tenta apenas voltar para casa em paz, nenhuma câmera será suficiente.
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