Essa é uma pergunta que escuto com frequência. A pessoa entra no consultório, senta, suspira e diz: “Doutora, acho que estou dependente de spray nasal.”
Quase sempre a história começa da mesma forma. Uma gripe, uma crise de rinite, um período de ar-condicionado constante. Alguém indica um spray que desentope o nariz em poucos minutos. O alívio é imediato. Parece mágico. Finalmente dá para respirar, dormir melhor, sentir a cabeça mais leve.
O que era para ser temporário vira hábito. Quando a pessoa percebe, já está usando todos os dias. Algumas deixam um frasco na bolsa, outro na mesa de trabalho, outro na cabeceira da cama. E aí surge a dúvida: será que isso virou vício?
A resposta é sim. Mas, é importante entender como isso acontece.
O que realmente acontece com o nariz?
Existem diferentes tipos de spray nasal, e essa diferença muda tudo. O problema geralmente está nos descongestionantes de ação rápida (ou vasoconstritores), aqueles que desentopem quase na hora. Eles funcionam contraindo os vasos sanguíneos dentro do nariz. Quando esses vasos diminuem, o inchaço reduz e o ar volta a circular gerando alívio quase imediato.
Importante dizer que esses sprays não tratam a causa do entupimento. Eles apenas diminuem o inchaço por algumas horas. Quando o efeito passa, os vasos voltam a dilatar. E muitas vezes dilatam ainda mais do que antes. O nariz entope novamente, às vezes com mais intensidade. É o chamado efeito rebote. Esse quadro recebe o nome de rinite medicamentosa.
É muito comum ouvir relatos como “não consigo dormir sem usar” ou “já tentei parar, mas entope mais ainda”. E isso realmente acontece. Quando o uso é interrompido, nos primeiros dias o nariz pode ficar ainda mais congestionado. Esse período é desconfortável, mas temporário. O nariz precisa de um tempo para recuperar sua capacidade de regular o fluxo sanguíneo.
E todo spray faz isso?
Não. Apenas os sprays que contém vasoconstritores tem ação de desentupir rapidamente o nariz e causam dependência. Os sprays com corticoide nasal funcionam de maneira diferente. Eles não promovem aquele alívio imediato, mas atuam na inflamação ao longo dos dias. São indicados principalmente para tratar rinite alérgica e outros quadros inflamatórios.
Por que é tão fácil exagerar?
Respirar é algo automático. Só percebemos sua importância quando fica difícil. Nariz entupido atrapalha o sono, prejudica a concentração, altera o humor e provoca cansaço.
O descongestionante é uma solução simples, prática e acessível. Muitas vezes, ninguém explica claramente que o uso deve ser limitado a poucos dias. Sem essa orientação, o uso se prolonga e o ciclo se instala.
Dá para sair desse ciclo?
Sim, mas é preciso paciência. Nos primeiros dias após interromper o descongestionante, há aumento da obstrução nasal. Com acompanhamento adequado, a respiração pode voltar ao normal.
O mais importante é entender que nariz entupido frequente não deve ser considerado normal. Pode haver rinite alérgica, sinusite, desvio de septo ou outros fatores que precisam ser avaliados.
Se você se reconheceu nessa história, saiba que não está sozinho. Isso é muito comum. E, o primeiro passo para melhorar é procurar seu médico!








