Um registro que circulou nas redes sociais nos últimos dias colocou a cantora Ana Castela no centro de comentários e memes. As imagens, gravadas durante uma apresentação ao vivo, sugerem que ela teria eliminado gases no palco. A repercussão foi imediata e revelou algo que vai além da curiosidade sobre o vídeo: o desconforto coletivo em falar sobre funções básicas do corpo humano.
Embora a cena tenha sido tratada com humor nas redes, ela abriu espaço para uma conversa mais ampla sobre o que é fisiológico, o que é tabu e, principalmente, o que acontece quando a tentativa de “segurar” o corpo vira hábito.
Por que o corpo produz gases?
A formação de gases faz parte do processo digestivo. Durante a digestão, alimentos que não são completamente absorvidos no intestino delgado seguem para o intestino grosso, onde passam por fermentação bacteriana. Esse processo gera gases como hidrogênio, dióxido de carbono e metano.
Além disso, parte do gás eliminado vem do ar engolido ao longo do dia, especialmente durante refeições feitas com pressa ou enquanto se fala. De acordo com dados da Cleveland Clinic, adultos saudáveis eliminam gases entre 10 e 20 vezes ao dia, totalizando cerca de um a dois litros diariamente.
Esses números são considerados normais e variam conforme alimentação, rotina intestinal e microbiota.
Apesar de comum, a flatulência costuma ser reprimida em ambientes sociais. Pesquisas em saúde digestiva indicam que mulheres tendem a segurar gases com mais frequência, por questões culturais e comportamentais, o que não altera a produção, apenas a retenção temporária.
Segundo o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), não existe relação entre eliminação de gases e falta de saúde quando isso ocorre dentro da frequência esperada. O problema começa quando o hábito de reter gases se torna recorrente.
O que acontece ao segurar os gases?
Reter gases por períodos prolongados pode provocar desconforto abdominal, distensão, sensação de inchaço e dor. Isso ocorre porque o gás acumulado aumenta a pressão dentro do intestino, estimulando terminações nervosas da parede intestinal.
Revisões clínicas publicadas no Journal of Neurogastroenterology and Motility apontam que, embora segurar gases ocasionalmente não cause danos permanentes, o hábito frequente pode agravar quadros de constipação e piorar sintomas em pessoas com síndrome do intestino irritável.
Não há evidências de que a retenção cause intoxicação ou problemas graves, mas o impacto no bem-estar e na função intestinal é documentado.
A produção aumentada de gases pode estar relacionada a padrões alimentares específicos. Alimentos ricos em carboidratos fermentáveis, conhecidos como FODMAPs, tendem a gerar maior volume de gás. Entre eles estão feijão, lentilha, grão-de-bico, cebola, alho, leite e derivados.
Segundo a Monash University, referência internacional em estudos sobre FODMAPs, dietas ricas nesses compostos podem intensificar gases e distensão, especialmente em pessoas sensíveis ou com distúrbios funcionais intestinais.
A constipação também contribui para o problema, já que o trânsito intestinal mais lento favorece maior fermentação das fezes.

Como identificar o padrão esperado
Em pessoas sem alterações digestivas, os gases costumam ter odor leve e frequência variável conforme a alimentação do dia. Mudanças pontuais são comuns após refeições mais pesadas ou ricas em fibras.
O Ministério da Saúde destaca que sinais de alerta surgem quando o excesso de gases vem acompanhado de dor persistente, perda de peso, alteração do hábito intestinal ou desconforto frequente, situações que justificam avaliação médica.
Estratégias simples para reduzir o desconforto
Algumas medidas ajudam a controlar o excesso de gases sem interferir no funcionamento natural do intestino:
- Reduzir o consumo de alimentos fermentáveis em períodos de maior desconforto
- Deixar leguminosas de molho por 12 a 24 horas antes do preparo
- Comer mais devagar e mastigar bem os alimentos
- Evitar falar enquanto mastiga para reduzir a ingestão de ar
- Manter ingestão adequada de água, conforme recomendações do Ministério da Saúde
- Praticar atividade física regular, que favorece a motilidade intestinal
- Incluir alimentos fermentados, como iogurte e kefir, que auxiliam no equilíbrio da microbiota, segundo a Organização Mundial da Saúde
Resumo:
A eliminação de gases é um processo digestivo normal e esperado. Segurá-los com frequência pode causar desconforto abdominal e piorar sintomas intestinais, embora não provoque danos graves. O episódio envolvendo Ana Castela ajudou a expor um tabu comum e a importância de compreender os sinais do próprio corpo.
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