Quando falamos em HPV, a maioria das mulheres pensa imediatamente no colo do útero, papanicolau e vacinas. Mas existe uma forma menos conhecida — e cada vez mais comum — da infecção: o HPV da garganta, ou papilomavírus humano transmitido pela via oral.
Trata-se de um assunto que ainda carrega tabu, constrangimento e, principalmente, falta de informação.
Mas entender esse tema é fundamental para a saúde feminina e para a prevenção de doenças graves.
O que é o HPV da garganta?
É a infecção pelo papilomavírus humano na região:
- da garganta
- da base da língua
- das amígdalas
- da laringe
A transmissão ocorre principalmente por sexo oral sem proteção, mas pode acontecer também pelo contato íntimo pele a pele.
E ao contrário do que muitos imaginam, homens e mulheres podem transmitir — mas as mulheres são as que mais sofrem com os efeitos a longo prazo.
O aumento dos casos de câncer de garganta por HPV nos últimos anos
Nos últimos 10 anos houve um aumento significativo de casos de câncer de orofaringe associado ao HPV em todo o mundo.
Hoje, estima-se que mais de 70% dos tumores de garganta em adultos jovens estão ligados ao HPV, especialmente os tipos 16 e 18 — os mesmos que causam câncer do colo do útero.
E o mais importante: a maioria das pessoas infectadas não sente absolutamente nada.
O HPV chega à garganta pela transmissão oral que ocorre por sexo oral sem proteção, contato íntimo com lesões genitais, beijo profundo quando há feridas ativas (mais raro, mas possível) e até por compartilhamento de objetos íntimos.
A infecção pode ficar “silenciosa” por meses ou anos sem dar sinal algum.
HPV na garganta dá sintomas?
Na maioria dos casos, não.
E é justamente isso que torna o problema sério.
Quando há sintomas, costumam ser:
- dor de garganta persistente
- sensação de “caroço” ao engolir
- rouquidão prolongada
- nódulo no pescoço
- dificuldade para engolir
- dor no ouvido sem causa aparente
Esses sintomas aparecem apenas quando há lesões avançadas, por isso o diagnóstico precoce é tão importante.
Toda infecção por HPV vira câncer?
Não. A grande maioria das infecções por HPV — incluindo as da garganta — é eliminada espontaneamente pelo sistema imunológico em até dois anos.
Porém, em uma parcela das mulheres, o vírus pode permanecer ativo e provocar alterações celulares com potencial de malignidade.
Fatores que favorecem essa persistência:
- tabagismo
- álcool em excesso
- baixa imunidade
- múltiplos parceiros sem proteção
- histórico de HPV genital
Prevenção: como se proteger do HPV da garganta
- Vacina contra HPV
É a maior aliada — e muitas mulheres não sabem que podem (e devem) se vacinar mesmo adultas.
- até 26 anos: gratuita pelo SUS
- 27 a 45 anos: recomendada com prescrição, disponível na rede privada
A vacina reduz drasticamente o risco de infecções de alto risco.
- Proteção no sexo oral
O uso de camisinha e barreiras de látex (dental dam) diminui enormemente o risco de transmissão.
- Cuidado com aftas e feridas na boca
Feridas aumentam a chance de contaminação.
- Evite cigarro e excesso de álcool
Eles potencializam o risco de progressão do HPV para lesões graves.
- Atenção ao parceiro
Homens costumam ser portadores assintomáticos, mas transmitem o vírus com facilidade.
Como é feito o diagnóstico de HPV na garganta?
O otorrinolaringologista pode identificar sinais suspeitos por meio de:
- exame físico
- videolaringoscopia (endoscopia da garganta)
- biópsia, quando necessário
Não existe exame de “papanicolau da garganta”, por isso a avaliação clínica é fundamental.
Tratamento para HPV na garganta
Não existe remédio que elimine o HPV.
mas o tratamento atua na remoção de lesões, no acompanhamento da região, no fortalecimento da imunidade, na prevenção de evolução para câncer e no monitoramento periódico. Quando detectado precocemente, o prognóstico é excelente.
Informação é poder — e nesse caso, é também prevenção.
O HPV da garganta existe, cresce silenciosamente e ainda é pouco discutido.
Mas falar sobre ele com naturalidade é fundamental para proteger a saúde feminina.
Com vacina, proteção, hábitos saudáveis e acompanhamento médico, é possível reduzir drasticamente o risco de infecção e de complicações.
A melhor prevenção começa quando o tabu termina.
Dr. Bruno Borges de Carvalho Barros
Médico otorrinolaringologista pela UNIFESP
Médico do corpo clínico do hospital Albert Einstein
Especialista em otorrinolaringologia pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e cirurgia cervico-facial.
Mestre e fellow pela Universidade Federal de São Paulo.
https://www.instagram.com/dr.brunobarros/






