Os números não surgiram de uma hora para outra, nem podem ser explicados por um único fator. Ao longo dos últimos dez anos, o feminicídio avançou de forma contínua no Brasil, revelando uma realidade que se impõe com força cada vez maior. Em 2025, ao menos 1.470 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, o equivalente a cerca de quatro mortes por dia em todo o país.
O levantamento é do Ministério da Justiça e Segurança Pública e mostra que, em comparação com 2015, quando foram registrados 535 casos, o crescimento foi de 175%. Mais do que uma estatística, os dados ajudam a dimensionar a persistência da violência de gênero e a dificuldade em romper ciclos que atravessam relações familiares, afetivas e sociais.
Uma curva que só cresce ao longo dos anos
A série histórica revela um aumento praticamente ininterrupto dos casos de feminicídio. Em 2016, foram 803 registros. No ano seguinte, o número saltou para 1.049. Desde então, os dados seguiram em alta, ultrapassando a marca de 1.300 mortes anuais a partir de 2019.
Entre 2020 e 2025, mesmo com mudanças no comportamento social e maior visibilidade do tema, os números se mantiveram elevados. Em dez anos, 13.448 mulheres perderam a vida em crimes classificados como feminicídio, uma média de 1.345 assassinatos por ano.
Onde os crimes se concentram
A distribuição dos casos pelo país também chama atenção. São Paulo lidera o ranking absoluto, com 233 feminicídios registrados apenas em 2025. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 139 casos, Rio de Janeiro, com 104, e Bahia, com 103.
Esses dados mostram que o problema não está restrito a uma única região e atravessa grandes centros urbanos e cidades de médio porte, indicando que fatores culturais, sociais e estruturais seguem presentes em diferentes contextos.
Violência que acontece dentro e fora de casa
Embora muitos feminicídios estejam ligados a relações afetivas, como casamentos e uniões estáveis, os casos registrados nos últimos meses mostram que a violência contra mulheres assume diferentes formas e vínculos.
Em Minas Gerais, o corpo de Thais Mendes da Silva, de 24 anos, foi encontrado após dias de desaparecimento. O ex-marido foi preso e acusado de matar e ocultar o cadáver. O caso reforça um padrão recorrente, no qual o agressor faz parte do círculo íntimo da vítima.
Em outra situação recente, no Ceará, um homem foi preso após arremessar a própria mãe da janela do apartamento. A tentativa de feminicídio, segundo a polícia, evidencia que o crime não se limita a relações amorosas e pode ocorrer também em vínculos familiares.

O que os números ajudam a revelar
Especialistas e autoridades apontam que o crescimento do feminicídio está ligado a uma combinação de fatores, como desigualdade de gênero, naturalização da violência, dificuldade de acesso a redes de proteção e falhas na prevenção. Apesar do endurecimento da legislação e da tipificação do crime, a efetividade das políticas públicas ainda enfrenta obstáculos na prática.
Os dados também mostram que denunciar, proteger e acompanhar mulheres em situação de risco continua sendo um desafio, especialmente quando a violência se desenvolve dentro de casa, longe do olhar público.
Divulgar os números e entender sua evolução ao longo do tempo é uma forma de tornar visível uma violência que, por muito tempo, foi tratada como assunto privado. O feminicídio não é um crime isolado, mas o desfecho de um processo que envolve ameaças, agressões e silenciamentos sucessivos.
Reconhecer os sinais, fortalecer redes de apoio e cobrar ações efetivas do poder público são passos fundamentais para interromper esse ciclo.
Resumo:
O Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, número que representa um crescimento de 175% em dez anos. Os dados do Ministério da Justiça mostram uma alta contínua dos casos e reforçam a urgência de políticas de prevenção e proteção às mulheres.
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