A promessa de moradia e alimentação ainda convence muitos trabalhadores a aceitar vagas longe de casa. No entanto, para 17 funcionários de um restaurante japonês na Zona Norte de São Paulo, essa oferta terminou em trabalho escravo. Eles viviam em um alojamento improvisado, sem condições mínimas de higiene, ventilação ou segurança, enquanto cumpriam jornadas exaustivas.
A situação veio à tona no em outubro de 2025, após uma ação do Ministério Público do Trabalho (MPT), que atuou em conjunto com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e outros órgãos. O resgate revelou quartos superlotados, camas instaladas em áreas impróprias, presença de mofo e fiação elétrica exposta — um cenário que colocava a saúde e a integridade física dos trabalhadores em risco.
Ação do MPT escancara condições degradantes
De acordo com o MPT, alguns trabalhadores dormiam em espaços improvisados dentro do imóvel mantido pelo empregador, sem ventilação adequada e com forte umidade nas paredes. Além disso, o alojamento funcionava como extensão do trabalho, dificultando qualquer possibilidade de descanso real ou busca por outro emprego.
Após o resgate, o órgão firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), determinando o registro retroativo em carteira, pagamento de verbas trabalhistas, indenizações por danos morais individuais e coletivos e a interrupção imediata do uso do alojamento em condições irregulares.
Essas medidas reforçam que o trabalho escravo urbano não se resume à falta de salário: ele envolve controle, dependência e violação contínua da dignidade humana.

Um problema estrutural que se repete nas cidades
Embora chame atenção, o caso da Zona Norte não é isolado. Pelo contrário. A oferta de alojamento, apresentada como benefício, frequentemente se transforma em um mecanismo de controle da mão de obra. O trabalhador passa a depender do empregador não apenas para o salário, mas também para dormir, comer e se manter na cidade.
Especialistas apontam que essa dinâmica atinge, sobretudo, pessoas vindas de regiões mais vulneráveis do país, como Norte e Nordeste. Sem rede de apoio e com pouco acesso à informação, muitos aceitam condições degradantes sem perceber, de imediato, que estão diante de trabalho escravo.
Os números confirmam: os casos estão aumentando
Dados obtidos pela BBC News Brasil mostram que as denúncias e os resgates de trabalhadores em condições análogas à escravidão em restaurantes cresceram de forma expressiva nos últimos anos.
Segundo informações do Ministério do Trabalho analisadas pela BBC, o número de pessoas resgatadas nesse setor saltou de apenas 8 em 2022 para 71 em 2023. Em 2024, foram 34 resgates, e, em 2025, até setembro, outros 39 casos já haviam sido registrados.
Esse crescimento, de acordo com auditores e especialistas ouvidos pela BBC, não indica apenas mais crimes, mas também maior conscientização dos trabalhadores e intensificação das fiscalizações. Ainda assim, o volume revela como o trabalho escravo urbano segue longe de ser exceção.
Por que o trabalho escravo ainda passa despercebido
Diferentemente da imagem associada ao campo ou a áreas isoladas, o trabalho escravo moderno se esconde em grandes cidades, atrás de fachadas comuns e restaurantes frequentados diariamente. Jornadas fracionadas, moradia controlada e ausência de registro formal ajudam a manter esse sistema funcionando.
Para o MPT, denunciar é essencial. Quanto mais informações chegam aos órgãos de fiscalização, maiores são as chances de interromper ciclos de exploração que, muitas vezes, se perpetuam por anos.
Resumo: O resgate de 17 trabalhadores pelo MPT em São Paulo evidencia um padrão preocupante de trabalho escravo urbano. Dados divulgados pela BBC News Brasil confirmam que os casos em restaurantes cresceram desde 2023, revelando que a exploração segue presente nas cidades e exige atenção constante das autoridades e da sociedade.
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