Desde que chegou ao Real Madrid, em 2018, Vinícius Júnior deixou de ser apenas um atacante decisivo para se tornar um dos principais símbolos globais de enfrentamento ao racismo no esporte. Na última terça-feira, em jogo contra o Benfica pela UEFA Champions League, a partida foi interrompida por cerca de dez minutos após ele relatar novo episódio de ofensa racial.
O caso mais recente soma 20 ocorrências de suposto abuso desde sua chegada ao futebol espanhol, segundo levantamento divulgado pela imprensa europeia.
O que aconteceu em Lisboa?
Durante o confronto em Portugal, Vini Jr. denunciou ter sido alvo de insulto racial por um jogador adversário. A acusação foi negada pelo atleta envolvido. Companheiros de equipe, entre eles Kylian Mbappé, afirmaram ter ouvido a ofensa.
O episódio levou à ativação do protocolo antirracismo da Uefa, que prevê paralisação da partida e comunicação oficial ao estádio. Ainda assim, o desfecho esportivo rapidamente deu lugar a um roteiro já conhecido: acusações, negativas e debates públicos que frequentemente deslocam o foco da agressão para a reação do jogador.
O histórico de ataques
Os registros se acumulam desde 2021. Em partidas contra Mallorca, Atlético de Madrid e Valencia, houve denúncias de imitações de macaco e xingamentos racistas vindos das arquibancadas. Em janeiro de 2023, um boneco com sua camisa foi pendurado em uma ponte em Madri, caso que resultou na condenação de integrantes de um grupo de torcedores.
O episódio em Valência, em maio de 2023, tornou-se um marco. Após confrontar torcedores que o insultavam, Vinícius foi expulso nos minutos finais do jogo. Em 2024, três torcedores foram condenados a oito meses de prisão e dois anos de proibição de frequentar estádios – foi a primeira sentença do tipo na Espanha relacionada a insultos racistas em estádio.
Apesar disso, novos episódios continuaram surgindo, inclusive fora de campo, como campanhas de ódio em redes sociais e gritos ofensivos em jogos nos quais ele sequer atuava.
O que dizem os números?
Segundo o relatório anual da organização Kick It Out, que monitora discriminação no futebol europeu, os casos de racismo seguem entre as principais denúncias em estádios. Já a Uefa mantém desde 2009 um protocolo em três etapas para combate ao racismo: aviso sonoro, paralisação temporária e, em caso extremo, encerramento da partida.
Na prática, porém, raramente os jogos são suspensos em definitivo. A maioria das punições envolve multas aos clubes ou sanções individuais após identificação dos responsáveis.
Por que parece que nada muda?
A Justiça espanhola passou a reconhecer com mais rigor o caráter criminal de ofensas racistas em estádios. Clubes têm sido pressionados a agir. A discussão ganhou dimensão internacional.
Mas a repetição dos casos revela um problema estrutural. O futebol é um espelho social: comportamentos discriminatórios que persistem fora dos estádios acabam ecoando dentro deles.
Oito anos depois de sua chegada à Europa, Vinícius continua decidindo jogos — e interrompendo partidas para denunciar ofensas. Enquanto isso, a pergunta permanece: as punições atuais são suficientes para transformar a cultura que permite que esses episódios se repitam?
Resumo:
Desde 2018, Vinícius Júnior já denunciou 20 episódios de suposto racismo atuando pelo Real Madrid. Apesar de condenações inéditas na Espanha e protocolos da Uefa, os ataques continuam ocorrendo. Especialistas apontam que o problema vai além do esporte e reflete estruturas sociais mais amplas, o que ajuda a explicar por que o debate ainda está longe de acabar.
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