Matheus Rocha decidiu transformar uma das experiências mais dolorosas de sua vida em um alerta para pais, educadores e toda a sociedade. O cantor revelou ter sido vítima de abuso quando criança, praticado por uma pessoa muito próxima à família, e afirma que falar sobre o tema é uma forma de conscientizar e ajudar outras vítimas a romperem o silêncio.
Em uma entrevista exclusiva à Ana Maria Revista, o artista abriu o coração e comentou o gatilho que sofreu ao ouvir a notícia recente sobre o estupro e morte de uma bebê em Fortaleza. “Durante muito tempo, eu não associei os problemas que enfrentei ao abuso que sofri na infância. Eu era visto como uma criança difícil, teimosa, desatenta, preguiçosa e, muitas vezes, era tratado como alguém que simplesmente não queria fazer as coisas da forma certa. As pessoas enxergavam o comportamento estranho, mas ninguém via a dor que existia por trás daquilo tudo”, relembra emocionado.
O ídolo de uma geração que é reconhecido nacionalmente por sua trajetória como vocalista da boy band Br´Oz afirma que, quanto mais falarmos sobre o problema, mais redes de apoio e prevenção vamos conectar. “O que eu não sabia naquela época era que experiências traumáticas podem deixar marcas profundas no desenvolvimento emocional de uma criança. Cresci carregando medos, inseguranças, gatilhos e conflitos internos que eu não conseguia explicar”, conta.
Ao ser questionado sobre o papel como personalidade que é, Matheus reafirma o compromisso de que a informação é uma aliada inclusive na recuperação de traumas passados. “Anos depois como adulto, enfrentei crises de ansiedade e síndrome do pânico, e durante muito tempo acreditei que tudo aquilo era apenas consequência do estresse da vida que eu levava. Hoje entendo que parte dessas feridas vieram como consequência também do que passei quando pequeno”.
A violência sexual infantil continua sendo uma das mais graves violações de direitos humanos no Brasil. Dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que apenas entre janeiro e abril de 2026 foram registradas mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes por meio do Disque 100, um aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os números revelam uma realidade preocupante, já que levantamentos nacionais indicam que o Brasil registra, em média, cerca de 150 casos de estupro de vulnerável por dia, sendo que grande parte das vítimas tem entre 1 e 13 anos de idade. Especialistas alertam ainda que muitos casos nunca chegam ao conhecimento das autoridades, o que significa que os números reais podem ser ainda maiores.
Especialista concorda com cantor e vai além

A psicanalista Cintia Castro admira a força, coragem e empenho de Matheus ao divulgar algo tão íntimo e sério, e vai além em sua análise. “As consequências do abuso infantil podem acompanhar a vítima por toda a vida e acaba afetando todos ao seu redor. Entre os impactos mais comuns estão transtornos de ansiedade, depressão, baixa autoestima, dificuldades de relacionamento, sentimento de culpa, medo constante, crises de pânico e problemas emocionais que podem se estender até a vida adulta”.
Ainda, diversos estudos também apontam maior vulnerabilidade ao isolamento social, ao uso de substâncias e a transtornos psicológicos severos quando não há acolhimento e acompanhamento adequado por parte dessas vítimas. “Criar diálogo, compartilhar experiências, informar a sociedade e alertar para possíveis quadros de risco é benéfico no sentido de expandir dados e acolher quem precisa”, opina a terapeuta.
Ao compartilhar sua história, Matheus Rocha reforça a importância da denúncia e do acolhimento às vítimas. Para o cantor, quebrar o silêncio é fundamental para impedir que milhares de crianças continuem sofrendo em segredo. Sua decisão de falar publicamente sobre o assunto soma-se a campanhas de conscientização que buscam encorajar vítimas e familiares a procurar ajuda, além de fortalecer mecanismos de proteção à infância.
Especialistas destacam que mudanças repentinas de comportamento, medo excessivo de determinadas pessoas, isolamento, queda no rendimento escolar e alterações emocionais podem ser sinais de alerta. Nesses casos, a orientação é buscar apoio psicológico e acionar os canais de proteção à criança e ao adolescente. No Brasil, denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes podem ser realizadas de forma anônima por meio do Disque 100, serviço gratuito disponível em todo o território nacional.
“Meu desejo ao compartilhar essa história é que pais, familiares, educadores e toda a sociedade estejam mais atentos. Escutar uma criança, acolher seus sentimentos e investigar mudanças repentinas de comportamento pode fazer toda a diferença. Nenhuma criança deveria carregar sozinha um trauma que impactará sua autoestima, sua saúde emocional e seus relacionamentos ao longo da vida, nunca”, fala Matheus e continua: “A conscientização não apaga o passado, mas pode proteger o futuro de muitas crianças. Se meu relato servir para que uma única criança seja ouvida, acolhida e protegida, então ele já terá cumprido um propósito importante”, finaliza.
