As férias chegam e, junto com elas, aparecem as viagens, os encontros familiares, os restaurantes, os horários diferentes, as sobremesas e uma rotina bem distante daquela que seguimos no dia a dia. Para muitas pessoas, esse período também vem acompanhado de uma preocupação: “Será que vou engordar e perder todo o resultado que conquistei?”
Essa é uma das maiores armadilhas quando falamos sobre emagrecimento: acreditar que existe apenas o “tudo ou nada”. Ou a pessoa segue uma rotina perfeita todos os dias, ou sente que colocou tudo a perder.
Mas o corpo humano não funciona dessa forma.
O emagrecimento saudável precisa caber dentro da vida real. E a vida real tem férias, aniversários, viagens, almoço em família, pizza com os filhos e um sorvete em um dia especial. O problema não está em uma refeição diferente ou em alguns dias fora da rotina. O problema acontece quando aquilo que deveria ser uma exceção se transforma em um comportamento constante.
Para existir um ganho significativo de gordura corporal, é necessário manter um excedente calórico por um período mais prolongado. Ou seja: alguns dias de escolhas diferentes dificilmente têm o poder de apagar meses de cuidado.
Além disso, é importante entender que nem todo aumento na balança depois de uma viagem significa ganho de gordura.
É muito comum uma pessoa voltar das férias dois ou três quilos mais pesada e entrar em desespero. Mas, muitas vezes, essa mudança está relacionada à retenção de líquidos, alterações intestinais e adaptações temporárias do organismo.
Durante uma viagem, normalmente consumimos alimentos com maior quantidade de sódio e carboidratos, bebemos menos água, dormimos em horários diferentes, podemos ingerir bebidas alcoólicas e alterar o funcionamento do intestino. Todos esses fatores interferem diretamente no peso corporal.
Quando a rotina é retomada, o próprio organismo tende a se reorganizar.
Por isso, mais importante do que tentar compensar as férias é aprender a viver uma relação mais equilibrada com a alimentação.
Um dos pilares do emagrecimento sustentável é abandonar a ideia de que saúde significa restrição absoluta. Dietas extremamente rígidas podem até trazer resultados rápidos em um primeiro momento, mas muitas vezes são difíceis de manter e aumentam o risco de episódios de exagero.
O tratamento da obesidade e do excesso de peso não pode funcionar apenas em uma segunda-feira perfeita, quando a geladeira está organizada e todos os horários estão sob controle. Ele precisa fazer sentido também no restaurante, em uma comemoração e durante uma viagem.
A chave está nas escolhas conscientes.
Comer uma sobremesa com a família, experimentar um prato típico ou sair da rotina durante alguns dias não deve ser interpretado como fracasso. Muitas pessoas conseguem reduzir o peso, mas continuam presas a uma relação de medo e culpa com a comida.
Saúde também envolve equilíbrio.
A constância construída durante semanas, meses e anos tem muito mais impacto no organismo do que alguns dias diferentes durante as férias.
E depois que as férias acabam, o caminho não é a punição. Não é ficar sem comer, começar uma dieta extremamente restritiva ou tentar “compensar” tudo em poucos dias.
O ideal é simplesmente ajudar o corpo a voltar para uma rotina organizada:
• Retomar os horários habituais das refeições;
• Aumentar o consumo de água;
• Priorizar alimentos naturais e ricos em fibras;
• Voltar gradualmente à prática de atividade física;
• Regularizar o sono;
• Retomar os hábitos que já faziam parte da rotina.
O corpo não precisa ser castigado depois de um período de descanso. Ele precisa de consistência.
O verdadeiro emagrecimento acontece quando entendemos que cuidar da saúde não significa deixar de viver. Significa aprender a fazer escolhas melhores na maior parte do tempo, sem transformar momentos especiais em motivo de culpa.
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco
