O Perdão, Caronte e o Espiritismo
O perdão e a reencarnação são inerentes à natureza humana
A mitologia grega narra que Caronte, o barqueiro do submundo, era encarregado de atravessar as almas até o reino de Hades, local aonde iam todas as pessoas após a morte.
Ocorre que para o barqueiro realizar a tal travessia, o recém-falecido deveria entregar-lhe uma moeda, um óbolo, que ficou conhecido até hoje como a moeda de Caronte, condição indispensável para a concretização da viagem, que era colocado sob a língua ou sobre os olhos do cadáver.
Caso o falecido não tivesse um enterro digno e não portasse a tal moeda, sua alma ficaria vagando por 100 anos, até poder fazer a viagem.
A tradição oral da Grécia antiga utilizou-se de metáforas, denominadas mitologia, porque despidas de realidade fática, e eternizou para a humanidade conceitos que atravessaram os milênios, influenciando até a bíblia, cujas parábolas e alegorias têm muita correlação com os ensinamentos helênicos.
É aí que eu quero fazer uma comparação do mito de Caronte, com a consolação prometida pelo Cristo e traduzida na Doutrina Espírita pelo perdão.
O espiritismo baniu a ideia da punição eterna, do inferno como castigo infinito para os pecadores, substituindo-a pela perspectiva do perdão, todavia, não o perdão gratuito, terceirizado, sem a correção dos equívocos acumulados ao longo da existência, mas o perdão proativo, decorrente da mudança de conduta e reparação dos danos causados.
A correlação é simples e fácil de entender: já naqueles tempos, era inconcebível pela própria natureza humana a ideia de que alguém pudesse ser punido para sempre, caso não tivesse ao longo da vida acumulado algum patrimônio moral, representado pela moeda do barqueiro, razão pela qual, mesmo sem o óbolo, com algum tempo e trabalho, a alma poderia fazer a travessia e ascender ao reino de Hades, onde deveria, aí sim, passar a eternidade.
Guardadas as proporções de prazos e limitações de compreensão da época, fica clara a ideia da necessidade de mérito próprio para a evolução e que, em não havendo ainda esse merecimento, outras oportunidades surgiriam, de modo a não condenar eternamente ninguém, como mais tarde afiançou o Cristo: “nenhuma ovelha se perderá do meu rebanho”.
Falamos aí do perdão a partir da mudança de comportamento, e das reencarnações, oportunidades de reflexão e correção dos equívocos, seguidas da construção de patrimônio positivo. A correlação é clara!
Todos realizaremos a travessia. Uns antes outros depois. O tempo será determinado pelo esforço de cada um ao aplicar da melhor forma possível o uso do livre-arbítrio.
Edson Sardano
