Sabe aquele espirro que aparece do nada? Ou aquele empoladinho no braço que pode ter sido ocasionado por uma mordida de mosquito? Para quem não convive com alergias, essas ocasiões podem ser só um detalhe no decorrer do dia. Mas, para quem convive com o problema, essas situações podem acender alertas e até causar pânico.
As alergias fazem parte da realidade de muitas famílias e podem impactar diretamente na qualidade de vida das pessoas, especialmente das crianças. Problemas respiratórios, rinite, asma e reações causadas por poeira, mofo, ácaros, produtos de limpeza e até alimentos estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios.
Segundo dados divulgados na última semana pela Agência Brasil, a rinite alérgica atinge cerca de 30% da população do Brasil e aproximadamente 26% das crianças brasileiras (em adolescentes, esse percentual é de 30%, de acordo com o Estudo Internacional de Asma e Alergias na Infância (ISSAC), aplicados em vários estados do país). Já a dermatite atópica, que afeta pessoas de todas as idades, atinge especialmente as crianças (cerca de 20%, sendo que 5% delas com a forma mais grave da doença. E mais: “a Organização Mundial da Saúde prevê que, até 2050, metade da população global poderá ter alergias, devido às mudanças climáticas, que permitem maior penetração de alérgicos no organismo das pessoas”.
Quem conhece esse problema de perto é Adelaide Britto, mãe de Maria Luiza, de 25 anos, que convive com alergia respiratória desde a infância e hoje também acompanha de perto os cuidados necessários com a filha, que apresenta o mesmo quadro. “Embora nossas alergias tenham intensidades diferentes, acabamos adotando uma série de cuidados no dia a dia para reduzir as crises. Mantemos a casa sempre limpa, fazemos a limpeza frequente dos filtros do ar-condicionado e utilizamos aspirador de pó em vez de vassoura, já que esta levanta muita poeira. Também usamos protetores antialérgicos e antiácaro nos travesseiros e colchões. O que mais trouxe resultado foi a combinação desses cuidados com a troca frequente das roupas de cama, tanto as minhas quanto as da minha filha. Quando esses hábitos não são mantidos, as crises de espirros aumentam bastante e acabam prejudicando a qualidade do sono”, conta.
E na coluna da semana, vamos conversar com especialistas no assunto para falar sobre como melhorar o dia a dia de quem convide com alergias.
A casa do alérgico
Lidar com o desafio do dia a dia para manter hábitos preventivos é uma constante na vida de famílias com pessoas alérgicas.
Na casa de Adelaide, por exemplo, todos evitam acumular objetos, principalmente nos quartos, e também estão sempre atentos à umidade e ao aparecimento de mofo, que podem desencadear ou agravar as crises alérgicas. “Os principais hábitos que incorporamos foram a limpeza regular dos ambientes, a higienização dos filtros do ar-condicionado, a troca frequente das roupas de cama, o uso de capas antialérgicas em colchões e travesseiros e a redução de objetos que acumulam poeira”, conta.
A alergista e imunologista Beatriz Paz, que atende crianças e adultos no Espaço Bunahum e em consultório próprio, explica que os principais causadores de alergia respiratória são os ácaros da poeira domiciliar. Por isso, é preciso muito cuidado com a limpeza da casa, principalmente no quarto em que o alérgico dorme. “É muito importante diminuir a exposição ao que causa as crises e alguns hábitos de limpeza precisam ser adaptados. No lugar de varrer a casa, limpe com pano úmido ou use aspiradores. Evite cortinas e tapetes e tenha o menor número de objetos possível porque, quanto mais coisas nos ambientes, como livros, brinquedos e pelúcias, mais poeira vai acumular”, avalia, e complementa: “esses cuidados não devem ser apenas onde o alérgico dorme, mas em toda a casa”. A dermatologista Paula Sian, do consultório Pele com Alma, sugere, ainda, roupas de cama, mantas e edredons confeccionados com materiais laváveis e de secagem rápida, que facilitam a manutenção da higiene; aspirador não apenas no chão, mas também em sofás, colchões e estofados; e travesseiros substituídos periodicamente, idealmente a cada ano, para evitar o acúmulo excessivo de ácaros.
Um ponto importante a ser falado é que as crises respiratórias e as manifestações alérgicas na pele nem sempre têm a mesma causa, embora possam ocorrer simultaneamente em crianças com predisposição alérgica, especialmente aquelas com atopia. “Em alguns casos, quando apresentam rinite, asma ou bronquite, também podem desenvolver dermatite atópica, caracterizada por pele seca, coceira intensa e lesões, principalmente nas dobras do corpo. Já as alergias exclusivamente cutâneas costumam estar mais relacionadas ao contato direto com substâncias irritantes, como tintas, produtos de limpeza, cosméticos inadequados para a idade, excesso de sabonete ou até mesmo alguns alimentos associados à exposição solar. Vale lembrar que nem toda irritação na pele é uma alergia. Durante o outono e o inverno, o ressecamento da pele é muito comum e frequentemente é confundido com quadros alérgicos”, exemplifica Paula.
Outra dúvida bastante comum é na hora do contato com o bichinhos de estimação. “A gente sabe que eles são irresistíveis e as crianças adoram ficar perto. Mas, se tiver gato e cachorro, não deixe entrar no quarto e subir nos móveis, porque eles carregam os ácaros nos pelos. Na maioria das vezes, a alergia nem é ao bichinho, mas aos ácaros que eles acabam transportando para os ambientes”, pontua Beatriz.
Já na hora de lavar a roupa das crianças, o ideal é utilizar produtos com o mínimo possível de fragrância. “Sabão de coco e detergentes específicos para peles sensíveis costumam ser boas opções. Os sabões líquidos geralmente deixam menos resíduos nas roupas do que os em pó, que muitas vezes são utilizados em excesso e podem permanecer impregnados nos tecidos após a lavagem. Também é recomendável evitar amaciantes perfumados, pois as fragrâncias podem desencadear sintomas respiratórios em crianças sensíveis. Quanto mais neutro for o produto utilizado, menor o risco de irritação. Além disso, é importante garantir um bom enxágue para remover completamente resíduos de sabão e outros produtos”, esclarece Paula.
É preciso falar, ainda, sobre a ventilação dos ambientes da casa, que é uma medida simples, mas muito importante para reduzir a concentração de agentes que podem desencadear crises alérgicas. Ao abrir as janelas diariamente, mesmo durante o inverno, ocorre a renovação do ar, diminuindo a umidade e favorecendo a circulação de ar fresco, o que dificulta a proliferação de microrganismos e melhora a qualidade do ambiente. Esse cuidado é especialmente importante para crianças alérgicas, que possuem vias respiratórias mais sensíveis e podem apresentar sintomas com mais facilidade quando permanecem por longos períodos em locais fechados e pouco arejados.
Mas, atenção: uma casa totalmente esterilizada não é a melhor solução para prevenir alergias. Isso é um mito. “O organismo humano convive naturalmente com uma grande variedade de microrganismos que fazem parte do equilíbrio da saúde. O excesso de limpeza e de produtos antissépticos não traz benefícios comprovados para a prevenção das alergias e, em alguns casos, pode até prejudicar a barreira natural da pele. O equilíbrio está em manter uma limpeza adequada, sem exageros. Não é necessário utilizar grandes quantidades de álcool, sabonetes ou produtos desinfetantes o tempo todo. Com as crianças, por exemplo, o uso excessivo de sabonete pode contribuir para o ressecamento da pele”, esclarece Paula.
Meu filho tem alergia?
Quando se tem uma criança alérgica em casa, independentemente do que gere que crises, os cuidados são redobrados em relação aos alérgenos. Mas e quando não se tem um diagnostico ainda?
Independentemente do que desencadeia as crises e como elas se manifestam, é preciso procurar um especialista. Isso porque a criança pode estar exposta diariamente a fatores que agravam os sintomas sem que a família perceba. Paula explica que o primeiro passo é procurar um alergista, um dermatologista e até um pneumologista para entender a história clínica daquela criança. “Assim, cada profissional vai pedir os seus exames. O pneumo provavelmente vai investigar por raio x de tórax e espirometria. O alergista começará com alguns exames de sangue. E o dermatologista costuma pedir um teste de contato, aqueles de colar na pele e que ficam quatro dias colado. Além disso, o alergista pode pedir também um teste chamado Prick Test, que faz pequenos furos na região do antebraço e normalmente é mais para alergia respiratória”, detalha.
Quanto aos sinais que podem indicar as alergias, Beatriz comenta que, na respiratória, quando muda o tempo, a criança fica com o nariz escorrendo, entupido, coçando e espirra muito. Além disso, tosse ou fica com falta de ar ao se exercitar. “Outro sinal é o ronco à noite, mas que pode ser por uma rinite alérgica, pela adenoide aumentada ou pelos dois. Nesse caso, às vezes, o otorrino precisa retirar a adenóides por cirurgia”, avalia. Já a alergia de contato não é comum nos pequenos, mas a incidência tem aumentado pelo uso precoce de maquiagem e esmaltes – nesses casos, normalmente, é uma lesão que coça muito, tem bolinhas, pode ter líquido dentro das lesões e é fixa no local de contato. E na alergia alimentar e medicamentosa aparece edema (inchaço) nas pálpebras ou nos lábios e /ou placas urticariformes (placas vermelhas com surgimento súbito e que mudam de lugar) com a ingestão do alérgeno. “Para saber o que desencadeia, é preciso investigar”, determina Beatriz.
Paula comenta, ainda, que na alergia respiratória pode ocorrer uma confusão com sinusite crônica, asma e bronquite, que também apresentam alguns sintomas semelhantes. “Uma criança que não consegue correr muito, que está com o nariz sempre entupido, respiração bucal, ronca demais e faz muito chiado pela boca e pelo nariz pode estar dentro de um desses quadros, e, para saber se é alergia, será preciso investigar para que o tratamento seja o correto”. Ela alerta, também, sobre a dificuldade de diferenciar a alergia alimentar da medicamentosa. “São duas alergias muito intensas. Como o alérgeno entra pela via oral, é absorvido pelo intestino e cai na corrente sanguínea, pode dar no corpo todo. Os sinais são vermelhidão, urticária, coceira, bolinhas menores e maiores, e, às vezes, um empelotado que começa mais na cabeça e vai progredindo em direção aos pés. E quando chega nos membros inferiores, quer dizer que já está resolvendo. Em geral, a alergia alimentar é logo depois de comer, no máximo meia hora; já a alergia medicamentosa pode aparecer até três semanas depois de ter terminado o tratamento do remédio”, detalha.
Em tempo: Chegamos ao inverno e, nesse período, nem toda manifestação na pele é alergia, mas consequência do ressecamento cutâneo. Banhos muito quentes e demorados, uso excessivo de sabonete e esfregação da pele com buchas favorecem a perda da barreira de proteção natural da pele e, como resultado, surgem coceira, vermelhidão, descamação e desconforto, sintomas frequentemente confundidos com alergias. “Para prevenir esse quadro, recomenda-se utilizar água morna, reduzir o tempo de banho, aplicar sabonete apenas nas áreas necessárias (como região genital, anal e axilas) e usar diariamente um hidratante sem perfume após o banho. Essas medidas simples ajudam a preservar a saúde da pele e a reduzir significativamente as queixas de coceira durante o outono e o inverno”, sugere Paula.
Alguns produtos devem ser evitados na casa de pessoas com alergias. A seguir, Paula Sian lista alguns e faz um alerta: “Mais do que listar produtos específicos, é importante entender quais categorias costumam oferecer maior risco para pessoas alérgicas. Sempre que possível, a recomendação é optar por versões sem perfume ou com fragrância mínima, priorizando produtos cuja função principal seja a limpeza e não a perfumação do ambiente”.
1. Velas perfumadas – liberam fragrâncias e partículas que podem irritar as vias respiratórias;
2. Aromatizadores de ambiente – frequentemente contêm substâncias voláteis capazes de desencadear crises de rinite, tosse e espirros;
3. Perfumes para tecidos, almofadas e roupas de cama – deixam resíduos perfumados que permanecem por longos períodos no ambiente;
4. Produtos de limpeza excessivamente perfumados – podem causar irritação respiratória em pessoas sensíveis;
5. Inseticidas em spray com fragrância intensa – além dos compostos químicos, o cheiro forte pode provocar desconforto respiratório.
Direto ao Ponto
A seguir, Beatriz Paz e Paula Sian falam mais sobre o tema.
Aventuras Maternas – No quarto infantil, quais são os cuidados indispensáveis com colchões, travesseiros, roupas de cama, cortinas, tapetes e brinquedos para evitar crises de alergia?
Beatriz Paz – Guarde os bichos de pelúcia dentro de sacos e dentro dos armários, só retirando quando a criança quiser brincar um pouco, e lave-os com frequência. Troque as cortinas de pano por persianas de material plástico que possam ser limpas com um pano úmido. Use capas antialérgicas para travesseiros e colchões, mas cuidado que têm muitas capas falsas. Peça indicações ao seu alergista. Troque lençóis e fronhas toda semana. Nunca varra o quarto do alérgico. A limpeza deve ser feita com aspirador e pano úmido diariamente, pois, quando varremos, a poeira fica suspensa no ar por 13 horas. Então, mesmo que a criança fique na escola em tempo integral, vai chegar em casa e a poeira estará no ar que ela vai respirar. Não deixe infiltrações nas paredes. Se não for possível fazer uma obra para sanar o problema, afaste a cama dessa parede até a resolução. Use produtos de limpeza com menos cheiro possível, pois o odor forte é desencadeante de crises. Não use amaciante nas roupas de cama. Se a criança tiver dermatite atópica, sugiro lavar as roupas com sabonete de roupa para bebê. E o mesmo vale para os que não têm dermatite, pois a pele de que tem alergia respiratória é seca e sensível. Procure manter a janela aberta para o local ficar ventilado. E lembre-se que, para tirar a poeira, basta um pano úmido, não precisa passar álcool ou qualquer outro produto perfumado.
Aventuras Maternas – Produtos de limpeza, aromatizadores, velas perfumadas e outros itens usados para deixar a casa cheirosa podem representar riscos para crianças alérgicas? O que deve ser evitado e quais opções são mais recomendadas?
Paula Sian – Sim. Crianças sensíveis a fragrâncias podem apresentar crises de espirros, tosse, rinite e até agravamento da asma quando expostas a produtos com cheiro intenso. Por isso, aromatizadores de ambiente, velas perfumadas, sprays, perfumes para tecidos e outros produtos destinados apenas a perfumar a casa devem ser evitados, especialmente em ambientes frequentados por crianças alérgicas. Na limpeza diária, soluções simples costumam ser suficientes. Água, sabão neutro e álcool são opções eficazes quando utilizados corretamente. O mais importante é permitir que o ambiente fique bem ventilado após a limpeza, evitando a exposição direta da criança aos vapores dos produtos. É importante lembrar que uma casa limpa não precisa necessariamente ter cheiro forte. O aroma intenso não é sinônimo de higiene. Aventuras Maternas – No quarto infantil, quais são os cuidados indispensáveis com colchões, travesseiros, roupas de cama, cortinas, tapetes e brinquedos para evitar crises de alergia?
