Quando recebi o convite para conhecer a nova Temporada de Balonismo em Boituva, no interior de São Paulo, fiquei curiosa. O destino, conhecido como a “Capital Nacional do Balonismo Turístico”, reúne paisagens abertas, céu colorido ao amanhecer e uma tradição que atrai visitantes de diferentes regiões do país em busca da experiência de voar de balão.
Confesso, porém, que fiquei agitada, afinal, em junho de 2025, um acidente com um balão ocorrido em Capela do Alto, município vizinho a Boituva, resultou na morte de uma mulher e deixou outras 11 pessoas feridas, ganhando repercussão nacional. De acordo com Leandro Rodrigo Pereira, diretor da Capital do Balão e publicitário, todo cenário mudou após a fatalidade.
A Prefeitura passou a sinalizar a autorização ou não para voos diariamente, ficando responsável pela fiscalização de equipamentos de prevenção e proteção, que atualmente são obrigatórios. “Há um limite de pessoas para cada cesto que é de 14 passageiros e todos os balões são equipados com extintores, sistemas de navegação, rádio, dentre outros itens de segurança. É muito triste o que houve e aconteceu com uma empresa que não estava regularizada na época”, conta.
Leandro ainda complementa: “Lamentamos demais, nada vai trazer a vida da psicóloga de volta e sentimos muito por tudo que aquelas pessoas passaram… Porém, ainda tem gente séria aqui, que trabalha com comprometimento e segurança e muitas famílias que dependem desse turismo e vivem dessa experiência e da movimentação que o balonismo proporciona”.
Aliás, em nome da equipe de Ana Maria Revista, registramos nossos sentimentos a todos os familiares e vítimas do acidente ocorrido e informamos que nossa reportagem foi convidada pelo Projeto Decola Boituva e voou com a empresa Capital do Balão, mas existem outros operadores que fazem parte do Projeto.
Tendência de experiência invade turismo e comportamento

“No começo eu estava com medo, mas minha mãe me tranquilizou e encorajou e posso dizer que a gente viveu algo que eu nunca mais vou me esquecer na vida. Adorei cada segundo e perguntei quando vamos fazer de novo”, diz a estudante Lara Rode Saliba, de 14 anos.
Sim, o turismo que ressalta experiência é uma tendência mundial que só cresce. “Quem vem voar não investe apenas no passeio de balão. Os turistas buscam hotéis aconchegantes e jantares harmonizados, elevando o padrão do turismo regional e movimentando o comércio e a cidade”, explica Ricardo de Almeida, representante do Projeto Decola Boituva, que reúne operadores de balonismo turístico de Boituva (SP) que têm por objetivo fomentar a atividade no destino.
O representante evidencia que o projeto também segue as novas medidas de segurança da atividade, alinhadas às normas vigentes da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). “Nossa ação também conta com apoio de fábricas de balão, hotéis, bares e restaurantes da capital nacional do balonismo turístico”, fala Ricardo.
A dica é ir no dia anterior a Boituva e dormir por lá

Um dos melhores pontos sobre a “Capadócia brasileira” se refere à proximidade, afinal, Boituva fica a apenas 116 quilômetros da capital paulistana. Apesar de ser perto, o ideal é que você se desloque na noite anterior ao voo, já que o check-in é realizado às 5h30 da manhã no hall do hotel, então o ideal é fazer o que fizemos: ir à tarde escolhendo uma boa hospedagem para descansar bem antes da aventura.
O Hotel Garrafão é um dos melhores para se hospedar na cidade, já que oferece um clima intimista, com quartos aconchegantes e equipe sempre disposta a ajudar. As acomodações são extremamente limpas, com estrutura diferenciada (roupa de cama e cobertores top), amenitties e até secador de cabelos no banheiro.
Optamos por um quarto com cama de casal e uma de solteiro já que eu estava com duas adolescentes de 14 anos. O hotel ainda oferece estacionamento próprio e um café da manhã que tem a cara do interior: repleto de delícias como bolos locais, vários tipos de frutas, iogurte e queijo fresco, variedades de pães, frios, cereais, além de ovos mexidos, salsicha e pão de queijo feito na hora.
A localização também é vantajosa, já que fica a poucas quadras do principal shopping local que oferece cafeterias, lojas de departamentos e praça de alimentação, incluindo até cinema. Depois do passeio a pé que incluiu até a praça com a igreja matriz fomos nos preparar para um jantar mais que especial.
Fomos convidadas a conhecer a Pizzaria Del Vecchio, um dos melhores endereços para aquela pizza de massa artesanal maravilhosa, digna de muitos elogios. Aliás, o empreendimento conta com vários prêmios em diversos anos como “melhor pizza de Boituva” e nós pudemos conferir o motivo. São tantos sabores que você fica sem saber o que escolher.
De entrada, pedimos a massinha polvilhada com parmesão que fica crocante e vem em porção mais que generosa – em três não conseguimos chegar à metade da cestinha. Na sequência, pedimos a pizza de massa de longa fermentação tradicional fina, que é simplesmente deliciosa, sendo meia “Atum do Carlos” com atum sólido, palmito, cebola e muçarela e a outra metade de “Rúcula Especial” que leva muçarela de búfala, tomate seco e rúcula fresca.
O atendimento impecável, com uma equipe que serve com alma e sorriso no rosto faz a diferença na pizzaria que tem ambiente fino e aconchegante. Amamos os detalhes como mantinhas nas cadeiras das mesas de fora, sendo que o aquário gigante logo na entrada é uma das atrações mais disputadas pelas crianças. Ah, a comodidade do estacionamento ao lado do restaurante é um dos diferenciais. Vale realmente ir um dia antes ao voo e jantar na Del Vecchio.
Preparação para o voo: ansiedade a mil e emoções também

Após passar por essa aventura, pude entender porque as pessoas chamam o voo de experiência e se emocionam tanto. Levantamos às 4h30 da manhã, afinal, estava marcado o encontro no hall do hotel às 5h30. A temperatura era 12 graus nos aparelhos, mas a sensação térmica era de muito menos. Autorizações assinadas, o Leandro reuniu o grupo para as orientações finais sobre o passeio e nos apresentou o piloto, chamado com carinho de “Varal” (nome esquisito para quem vai nos colocar nas alturas, mas ele me explicou que era apelido de infância, ufa…) e então, seguimos para o campo, chegando lá ainda parecendo que era noite.
A grama molhada pelo sereno nos deixou com mais frio ainda, mas nada superou a adrenalina ao ver tantos balões sendo preparados, ali, sendo inflados, para que a magia acontecesse. O colorido dos balões contrastava com o campo úmido e o céu ainda cinza. Como boa jornalista, fiquei observando como eles enchiam aqueles balões e os colocavam de pé, sendo uma mistura de técnica, com ciência e trabalho em equipe. Cada balão fazia parte de uma empresa que mantém sua própria estrutura, o que emprega muita gente e movimenta a economia local de forma extraordinária.
Cesto preparado, repleto de equipamentos de segurança, piloto dentro e nós fomos subindo. Para que você entenda, a empresa divide o cesto em separações para 4 ou 3 pessoas assim ficam todos confortáveis e o peso, equilibrado. Nem sentimos o balão saindo do chão de tão suave que foi a decolagem e começamos a contemplar a vista porque já tinha amanhecido.
O voo é tão tranquilo que de lá de cima ligamos para uma amiga em chamada de vídeo e ela não acreditou na paisagem e onde estávamos. Ao olhar ao redor contamos cerca de mais de 21 balões no ar, cada um a uma distância ou altura diferentes, mas algo em comum os unia: a felicidade. Estar perto das nuvens e contemplar a natureza é surpreendente e preciso dizer que isso promove uma paz interna indescritível.
Quando o balão sobe e devido ao fogo pra manter ele lá em cima, a temperatura vai junto e com isso, tiramos um dos casacos. Até porque voamos das 7h da manhã até 8h percorrendo mais de 4 quilômetros e respondendo acenando ao pessoal que passava na estrada e buzinava, vibrando por nos ver no balão, pouco antes da aterrissagem. Aliás, o pouso foi bem tranquilo e super controlado pelo piloto experiente que nos agradeceu pela confiança já em terra firme.
Mais do que um passeio, a experiência nas alturas passou a integrar uma tendência crescente de consumo voltada à criação de memórias afetivas e nós sentimos isso na pele. Com voos ao amanhecer, vista panorâmica da cidade e experiências, o balonismo tem atraído centenas de pessoas em busca de celebrações diferenciadas, longe dos formatos tradicionais de presentes. Além disso, é o motor de uma cadeia que movimenta a hotelaria e a gastronomia local que merece mais que destaque.
Felizes da vida, retornamos ao hotel para o café da manhã tão comentado e lá colhi as impressões das meninas: “Muito obrigada, eu nunca vou me esquecer, foi mágico, foi surreal”, falaram empolgadas. Descansamos um pouco e quando deu meio-dia, fizemos o checkout porque ainda tínhamos mais uma parada obrigatória antes de pegar a estrada de volta a São Paulo.

Com estacionamento próprio, o restaurante Aquattro Ristorante e Caffè comandado pela Chef Stela Sodré impressiona ao oferecer uma gastronomia regional, vegana e premiada. Logo de início, a arquitetura do local e decoração agradam, sendo que o almoço foi, em resumo, uma grata surpresa mesmo a minutos antes da viagem terminar.
O buffet vasto traz opções diferenciadas de saladas, entradas e pratos principais de tirar o fôlego, tanto que, você acaba querendo provar um pouquinho de tudo. Destaque para o Bobó de Camarão sensacional que degustei, já que era dia de culinária baiana. Mesmo com o tema escolhido, o menu ainda trouxe feijoada como opção e outras comidas como macarrão, dentre outros. Amamos o Dadinho de Tapioca com geleia de pimenta e as sobremesas que além de lindas (sim, você come com os olhos) estavam saborosas demais!
Saldo da viagem: as meninas me perguntaram quando vamos novamente, e eu sorri, como quem acaba de marcar um ponto na final de um campeonato acirrado porque ter aprovação de duas adolescentes após um programa em família é uma vitória e tanto! Quem é pai e mãe sabe disso e eu recomendo! Planeje a sua aventura, envolva os familiares, muna-se de informação e permita-se! Vale mesmo voar de balão em Boituva. Acredite!
