A Copa do Mundo transforma a rotina de milhões de famílias ao redor do planeta. As partidas, as bandeiras, as comemorações e o clima de união despertam nas crianças a curiosidade pelo esporte e um “convívio” maior com os ídolos do esporte mais popular do Brasil. Mas além do futebol, o evento também cria oportunidades valiosas para que os pais e responsáveis conversem com seus pequenos sobre valores como disciplina, trabalho em equipe e respeito.
Porém, em meio à torcida, aos encontros familiares e às celebrações, é importante observar como cada criança reage aos estímulos intensos que costumam acompanhar os jogos. Barulhos, fogos de artifício, gritos e ambientes muito cheios podem gerar desconforto, especialmente para crianças neurodivergentes, incluindo aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Além disso, a emoção das partidas pode provocar reações físicas e emocionais intensas, como gritar, pular, ficar ansioso com o resultado ou se frustrar com uma derrota. Tudo isso, como nós adultos sabemos, faz parte da vivência esportiva, mas é importante que os mais velhos fiquem atentos para evitar excessos.
Na matéria de hoje, reunimos informações importantes sobre diferentes assuntos, mas todos com um ponto em comum, a Copa do Mundo.
Desafios invisíveis para crianças com TEA e TDAH
A Copa do Mundo costuma ser um período de festa, integração e entusiasmo para milhões de brasileiros. No entanto, para muitas crianças com autismo e TDAH, o evento pode representar uma fonte de ansiedade e sobrecarga sensorial que passa despercebida pela maioria das pessoas.
Segundo a neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto, os desafios vão muito além dos fogos de artifício e das buzinas que costumam marcar as comemorações. “Quando falamos de crianças neurodivergentes, precisamos olhar para o conjunto da experiência. A Copa altera rotinas, aumenta a expectativa, expõe a criança a ambientes mais agitados e gera uma quantidade muito maior de estímulos do que ela está acostumada a processar”, explica. E continua: “Muitas crianças têm necessidade de previsibilidade para se sentirem seguras. Quando há uma movimentação diferente na escola, em casa ou na comunidade, elas podem apresentar irritabilidade, inquietação e dificuldade de concentração dias antes das partidas”.
No caso de crianças com sensibilidade sensorial, os sons intensos podem ser especialmente desconfortáveis. Fogos, rojões, gritos e buzinas não são apenas barulhos altos para algumas crianças. “Eles podem ser percebidos como estímulos extremamente invasivos, capazes de gerar sofrimento real, crises de ansiedade e até episódios de desregulação emocional”, observa Bárbara. Ela ressalta, ainda, que o apoio da família faz toda a diferença nesse período. “Preparar a criança para o que vai acontecer, explicar que haverá jogos e possíveis comemorações, além de criar estratégias de proteção sensorial, ajuda a reduzir a insegurança e o impacto desses estímulos”, orienta.
Entre as medidas que podem ser adotadas estão o uso de abafadores de ruído, a criação de um ambiente tranquilo para momentos de descanso e o respeito aos limites individuais da criança. “O objetivo não é afastar a criança da experiência coletiva, mas garantir que ela possa participar de forma confortável e segura, respeitando suas necessidades”, pondera.
Confira abaixo 10 dicas que a neuropsicóloga Bárbara Calmeto reuniu para ajudar pais e responsáveis a atravessar esse período de forma mais tranquila:
1. Antecipe o que vai acontecer: Explique à criança, com antecedência, quando serão os jogos e que pode haver comemorações, buzinas, fogos ou reuniões familiares. A previsibilidade reduz a ansiedade;
2. Mantenha a rotina sempre que possível: Mesmo em dias de partida, procure preservar horários de alimentação, sono, estudos e atividades habituais. A rotina funciona como um fator de segurança emocional;
3. Crie um espaço de refúgio: Reserve um ambiente silencioso da casa para que a criança possa se retirar caso se sinta sobrecarregada pelos estímulos;
4. Utilize recursos de proteção auditiva: Abafadores de ruído ou fones de ouvido podem ser aliados importantes para crianças com hipersensibilidade a sons intensos;
5. Observe os sinais de desconforto: Irritabilidade, agitação, isolamento, choro ou aumento de comportamentos repetitivos podem indicar que a criança está enfrentando uma sobrecarga sensorial;
6. Evite a exposição prolongada a ambientes muito estimulantes: Se houver festas ou reuniões, faça pausas regulares para que a criança possa descansar e se reorganizar emocionalmente;
7. Valide os sentimentos da criança: Em vez de minimizar o desconforto, reconheça o que ela está sentindo. Frases como “eu entendo que esse barulho está te incomodando” ajudam a criança a se sentir acolhida;
8. Não force a participação nas comemorações: Nem toda criança vai querer assistir aos jogos ou participar das festas. Respeitar seus limites é fundamental para evitar situações de estresse;
9. Tenha um plano para momentos de crise: Identifique previamente estratégias que costumam funcionar, como um objeto de conforto, exercícios de respiração, um ambiente mais calmo ou atividades reguladoras;
10. Lembre-se de que cada criança é única: O que funciona para uma criança pode não funcionar para outra. O mais importante é observar suas necessidades individuais e adaptar o ambiente para que ela se sinta segura.
Copa como estimulo à fala e comunicação
A Copa do Mundo costuma unir famílias inteiras diante da televisão, mas além da torcida e da emoção dos jogos, o evento também pode se transformar em uma importante ferramenta para o desenvolvimento infantil.
Segundo a fonoaudióloga infantil Adriana Fiore, o clima de interação, conversa e participação coletiva favorece a ampliação do vocabulário, o desenvolvimento da fala e das habilidades de comunicação das crianças.
A especialista explica que a linguagem se desenvolve principalmente em situações reais e compartilhadas, e, durante a Copa, as elas entram em contato com palavras novas, músicas, bandeiras, nomes de países, jogadores e expressões que passam a fazer parte das conversas do dia a dia. “A linguagem cresce quando a criança participa das interações. A Copa oferece exatamente isso: emoção, repetição, significado e troca afetiva. Quando os adultos comentam o jogo, fazem perguntas e conversam sobre o que está acontecendo, transformam aquele momento de lazer em uma experiência rica para o desenvolvimento da comunicação”, afirma.
Palavras como “gol”, “torcida”, “campeão”, “juiz”, “passe”, “falta” e “defesa” passam a ser repetidas naturalmente durante as transmissões, nas brincadeiras e nas conversas familiares. Para a especialista, essa repetição tem papel fundamental no aprendizado infantil. “A repetição ajuda a criança a aprender, mas ela precisa vir acompanhada de interação. A criança aprende quando alguém conversa com ela, espera sua resposta, responde ao que ela tentou dizer e amplia sua fala. Não é apenas assistir ao jogo, é participar dele socialmente”, destaca.
Além do vocabulário, outras habilidades importantes também são estimuladas, como a atenção compartilhada, a compreensão verbal, a memória auditiva, a organização do pensamento, a capacidade de fazer perguntas, responder, narrar acontecimentos e expressar emoções. “Quando a família pergunta quem fez o gol, qual time está ganhando ou o que aconteceu em determinada jogada, a criança começa a organizar ideias, construir frases e compreender melhor o funcionamento das conversas. São habilidades fundamentais para a comunicação e para a aprendizagem futura”, explica.
E o evento também pode beneficiar crianças ainda muito pequenas. Segundo Adriana, mesmo os bebês participam dessas experiências por meio da observação das expressões faciais, das músicas, dos sons e das reações emocionais dos adultos – nos primeiros anos de vida, especialmente entre 0 e 6 anos, período considerado decisivo para a construção da linguagem, essas experiências compartilhadas ganham ainda mais importância. “Não existe uma idade ideal para aproveitar esse estímulo. O que muda é a forma de interação. Com os menores, podemos explorar músicas, gestos, apontar objetos e nomear situações. Com os maiores, podemos estimular conversas, perguntas, opiniões e até atividades envolvendo leitura, escrita, bandeiras e tabelas dos jogos”, orienta.
Para os pais que desejam aproveitar o momento de forma educativa, a recomendação é simples: conversar mais e usar o evento como ponto de partida para brincadeiras e trocas. Narrar as jogadas, perguntar para quem a criança está torcendo, cantar músicas da torcida, desenhar bandeiras, brincar de narrador esportivo ou montar uma tabela dos jogos são algumas das atividades sugeridas pela especialista. “O segredo é transformar a criança em participante da experiência. Quanto mais ela fala, pergunta, responde, canta e compartilha o momento com a família, maiores são os ganhos para o desenvolvimento da linguagem”, afirma.
Mas, atenção: se por um lado a Copa estimula a comunicação, por outro exige alguns cuidados com a saúde vocal das crianças. Gritos excessivos, cantorias prolongadas e a tentativa de competir com o volume alto da televisão podem provocar esforço vocal e rouquidão. “Torcer faz parte da infância e das memórias afetivas da família, mas a voz da criança também precisa ser preservada. Ela pode vibrar, cantar, bater palmas e comemorar sem precisar gritar o tempo todo”, alerta Adriana.
Outro ponto de atenção é a rouquidão persistente. “Se a criança fica rouca após um jogo e a voz melhora rapidamente, geralmente não há motivo para preocupação. Mas, quando a rouquidão dura vários dias, acontece com frequência ou a criança demonstra esforço para falar, é importante buscar avaliação especializada”, explica. Segundo ela, um dos erros mais comuns é considerar normal a criança viver rouca. “Rouquidão frequente não deve ser encarada como característica da criança. Muitas vezes é um sinal de abuso vocal ou até de alterações nas pregas vocais que precisam ser investigadas”, finaliza.
Figurinhas e desenvolvimento infantil
A cada edição da Copa, uma tradição volta a mobilizar crianças, adolescentes e até adultos: colecionar figurinhas. Trocas nas escolas, busca pelas “raras” e o desafio de completar o álbum transformam a brincadeira em um verdadeiro fenômeno cultural e a experiência pode trazer benefícios importantes para o desenvolvimento infantil.
De acordo com a neuropsicóloga Aline Graffiette, o hábito de colecionar estimula diferentes áreas cognitivas e emocionais, principalmente em crianças e adolescentes. “Apesar de parecer apenas entretenimento, colecionar figurinhas envolve memória, organização, atenção, planejamento e interação social. O cérebro trabalha diversas habilidades durante esse processo”, comenta. Ela explica que o simples ato de procurar números repetidos, identificar espaços vazios no álbum e organizar as páginas já estimula funções executivas importantes para o desenvolvimento cognitivo. Além disso, a troca de figurinhas favorece habilidades sociais e emocionais. “A criança aprende negociação, espera, frustração, comunicação e convivência. Existe um aspecto coletivo muito forte nessa experiência”, afirma.
Outro ponto observado pela profissional é o impacto afetivo e nostálgico do hábito. Afinal, quem não conhece alguém que guarda o álbuns que tem ainda de quando era criança? “Colecionar também cria memória emocional. Muitos adultos revivem experiências da infância através dos álbuns, o que ajuda a explicar porque a febre das figurinhas atravessa gerações”, diz.
Essa empolgação em trocar figurinhas e completar álbuns levanta, também, outro aspecto muito importante. Em um cenário dominado por telas e estímulos digitais rápidos, atividades físicas e interativas como essa ganham ainda mais relevância. “É uma brincadeira que promove interação presencial, troca entre amigos e senso de pertencimento, algo muito importante principalmente para crianças e adolescentes”, destaca.
Mas para a diversão não se tornar um problema, a neuropsicóloga ressalta que os pais devem acompanhar a experiência para evitar excessos ligados ao consumo ou frustração exagerada. “O ideal é que a atividade seja vivida de forma leve e divertida, sem transformar o álbum em motivo de ansiedade ou competição extrema”, explica.
A seguir, Aline pontua o benefícios que o hábito de colecionar figurinhas pode estimular:
• atenção e concentração;
• memória visual;
• organização;
• raciocínio lógico;
• habilidades sociais;
• tolerância à frustração;
• interação fora das telas.
“Existe um valor emocional e social muito grande nesse tipo de brincadeira. Ela conecta pessoas, gera troca e estimula habilidades importantes de forma natural e prazerosa”, conclui Graffiette.
Projeto utiliza futebol para estimular crianças com autismo
O Centro Especializado em Reabilitação Física e Intelectual (CER II) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) está desenvolvendo o projeto “Craques do CER – Copa do Mundo: Aprendendo e Desenvolvendo Habilidades através do Futebol”. A iniciativa utiliza o esporte como ferramenta para estimular o desenvolvimento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Inspirado no universo da Copa do Mundo, o projeto promove atividades lúdicas e terapêuticas voltadas ao fortalecimento de habilidades cognitivas, motoras, sociais, comunicativas e emocionais. Entre as ações estão circuitos motores, jogos da memória, brincadeiras com bola, dinâmicas sobre emoções e atividades coletivas que incentivam a interação e a participação dos pacientes.
Segundo a coordenadora do CER II Univali, Vera Lígia Bento Galli, o futebol oferece inúmeras possibilidades de aprendizado e desenvolvimento dentro do processo terapêutico. “O futebol desperta interesse, motivação e participação. Por meio de atividades lúdicas e planejadas, conseguimos trabalhar habilidades fundamentais para o desenvolvimento das crianças, como interação social, comunicação, coordenação motora, respeito às regras e trabalho em equipe. Quando utilizamos elementos que fazem parte do universo delas, o aprendizado acontece de forma mais significativa e prazerosa”, destaca.
Entre os benefícios observados pela equipe técnica estão o fortalecimento das habilidades sociais, o estímulo à comunicação verbal e não verbal e o desenvolvimento da coordenação motora, do equilíbrio, da lateralidade e da percepção espacial.
Para contribuir com as atividades do projeto, a FG Empreendimentos realizou a doação de bolas de futebol oficiais autografadas pelo craque Cristiano Ronaldo. O material será incorporado às ações desenvolvidas pelo CER II e deve ampliar o engajamento dos participantes nas propostas terapêuticas. “A chegada desse material trouxe ainda mais entusiasmo para as crianças. São recursos que despertam a curiosidade, incentivam a participação e fortalecem o vínculo com as atividades desenvolvidas pela equipe. Ficamos muito felizes com essa parceria e com o olhar social voltado ao desenvolvimento dos nossos pacientes”, afirma Vera.
Referência para os municípios da Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí (Amfri), o CER II Univali atua na saúde pública e comunitária, oferecendo atendimento especializado e humanizado para pessoas com deficiência física e intelectual, com foco no desenvolvimento físico, intelectual e social dos pacientes.