Toda carreira precisa de torcida. Mas, por algum motivo, muitas mulheres ainda acreditam que precisam dar conta de tudo sozinhas.
Estamos em uma das épocas de que o brasileiro mais gosta: a Copa do Mundo. Ruas enfeitadas, camisa canarinho resgatada do armário, bolões no trabalho e discussões acaloradas sobre escalação. Mas uma das cenas que mais me chama atenção nesse período não acontece dentro de campo. Acontece na arquibancada. Milhares de pessoas cantando, vibrando, sofrendo, acreditando.
E aí eu fico pensando: por que a gente acha tão normal que um jogador (ou onze, vai) tenha uma torcida inteira por trás dele, mas acredita que a gente precisa construir a nossa carreira sozinha?
A mulher que dá conta de tudo
Vejo isso mais do que gostaria. Mulheres brilhantes, competentes, estudadas, trabalhadoras. Mulheres que dão conta de filhos, casa, chefes, clientes, boletos, reuniões e da lista mental infinita que carregam na cabeça (e ainda acham tempo para malhar), mas que, quando o assunto é pedir ajuda, travam.
Como se precisar dos outros fosse sinal de fraqueza. Ou como se o sucesso fosse uma prova individual. Mulheres são heroínas e conseguem tudo sozinhas. Será mesmo?
Tenho uma notícia que talvez alivie um pouco seu coração: ninguém consegue tudo sozinho. Nem no futebol.
O craque que faz o gol tem o colega que deu o passe, tem um técnico orientando as jogadas, preparadores físicos, analistas de dados, colegas de time e uma torcida inteira acreditando nele. Tem até um VAR para tentar salvar a tal da “meritocracia” — palavra na qual eu acredito cada vez menos quando vejo quantas pessoas começam a corrida com o degrau quebrado logo na largada. Por que seria diferente com a gente?
Nenhum craque joga sozinho
Ao longo da minha carreira, percebi que as pessoas mais bem-sucedidas que conheci não eram necessariamente as mais inteligentes. Nem as mais talentosas. Eram as que sabiam construir relações, se cercavam de pessoas com conhecimentos diferentes dos seus e podiam contar com um colega não apenas quando precisavam de um favor. As que cultivavam uma rede de apoio antes da emergência acontecer.
Curiosamente, muitas mulheres aprenderam o oposto.
Aprenderam que devem ser fortes, independentes, autossuficientes e resolver tudo sozinhas. E, sem perceber, transformam a própria carreira num esporte de modalidade individual.
Só que ela está mais para jogo coletivo.
Quando você perde o emprego, quem procura? Quando quer mudar de área, com quem conversa? Quando surge uma oportunidade, quem lembra de você? Quando recebe uma promoção, quem comemora junto?
Essas respostas dizem muito mais sobre sua carreira do que seu currículo.
Toda carreira precisa de torcida, não apenas de contatos
Outro dia, perguntei no LinkedIn quantas das suas conexões por lá as pessoas realmente conheciam. A pergunta ficou ecoando na minha cabeça. De que adianta ter 5 mil conexões vendo você jogar se elas não torcem por você?
Pior: sabe quando a bola cai na arquibancada? Imagina essa conexão pegando a bola e saindo correndo do estádio com ela debaixo do braço? Você fica sem jogo.
Infelizmente, isso acontece mais do que imaginamos. Investimos anos desenvolvendo competências técnicas e pouco tempo desenvolvendo vínculos. Só que as oportunidades boas circulam por pessoas. Convites para novos trabalhos chegam por pessoas. E apoio emocional também.
Talvez por isso eu goste tanto da imagem da torcida. Porque ela não serve apenas para os dias de vitória. A torcida também aparece quando o time está perdendo, quando a confiança está baixa e quando nem mesmo a gente acredita em si mesma.
Quem ocupa a sua arquibancada?
Se toda carreira precisa de torcida, talvez esteja na hora de você olhar para a sua arquibancada. Quem você vê? Quem torce por você de verdade? Para quem você torce? E, principalmente, de quais pessoas você se afastou na tentativa de provar que conseguia fazer tudo sozinha?
Porque carreira, assim como futebol, não é um esporte individual. Toda carreira precisa de torcida.
Ou você imagina o Neymar defendendo um gol, chutando para o meio do campo, correndo para ele mesmo pegar a bola, dar a assistência e chutar para o gol?
Não dá, né? Nem para você. E ninguém deveria precisar carregar a própria vida inteira sem uma torcida.
