Se você já se pegou pensando que educar uma criança hoje parece mais difícil do que antes, você não está sozinha. Birras mais intensas, dificuldade de concentração e impaciência têm feito parte da rotina de muitas famílias. Por trás desse comportamento, existe uma geração que cresceu cercada por estímulos rápidos e constantes.
Nascida a partir de 2010, a geração Alpha cresceu em um mundo em que internet, celular e telas sempre estiveram presentes. Diferente das gerações anteriores, essas crianças não passaram por uma transição digital e já nasceram conectadas. Por isso, pedem novas formas de cuidado e limites.
O que muda no comportamento dessas crianças?
O contato precoce com telas e estímulos rápidos impacta diretamente o desenvolvimento emocional e comportamental. Crianças dessa geração tendem a ter mais dificuldade em sustentar a atenção, esperar e lidar com frustrações, habilidades que se constroem com o tempo e a experiência.
Segundo Isa Minatel, neuropsicopedagoga e autora dos best-sellers Crianças Sem Limites e Temperamentos Sem Limites, esse cenário favorece uma busca constante por gratificação imediata e dificulta o processamento mais profundo das experiências.
No dia a dia, isso pode aparecer em forma de impulsividade, abandono rápido de atividades e maior intensidade nas reações emocionais. A criança até sente, mas nem sempre sabe o que fazer com o que sente, e acaba buscando saídas mais rápidas, como distrações externas.
A frustração virou um desafio
A forma como os adultos respondem às emoções das crianças também influencia esse cenário. Em muitas situações, a tentativa de evitar o choro ou a irritação impede que a criança aprenda a lidar com esses sentimentos.
“Crianças distraídas por tela, quando frustradas, não aprendem a processar emoção, aprendem a evitar”, explica Isa. Com o tempo, isso pode reduzir a tolerância ao desconforto e aumentar a ansiedade.
Na escola, esse reflexo também é percebido. Crianças mais acostumadas a respostas rápidas podem ter dificuldade em atividades que exigem persistência, repetição e paciência.
“O cérebro aprende no ritmo do tédio, da repetição, da espera, e tudo isso virou artigo de luxo na infância contemporânea”, afirma Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School.

O caminho do meio
Muitos pais se veem divididos entre impor regras rígidas ou ceder para evitar conflitos. De acordo com as especialistas, nenhum desses extremos costuma funcionar a longo prazo.
O caminho mais efetivo é equilibrar acolhimento e limite. Segundo Isa, algumas respostas comuns, mesmo com boa intenção, podem piorar comportamentos desafiadores. Outras, mais conscientes, ajudam a desenvolver autonomia emocional.
Na prática, a diferença aparece aqui:
Em vez de… tentar resolver durante a crise
Prefira… acolher primeiro e ensinar depois. Durante a birra, a criança não consegue raciocinar. “Depois que acalmou, entra o aprendizado”, diz Isa Minatel.
Em vez de… distrair com tela para acalmar
Prefira… ajudar a criança a lidar com o que sente. Em vez de fugir da emoção, ela aprende a processar o que está sentindo.
Em vez de… fazer ameaças que não se cumprem
Prefira… manter combinados claros e consistentes. Isso fortalece a confiança e dá segurança sobre os limites.
Chato, mas necessário!
Pode parecer estranho, mas o tédio tem uma função importante na infância e está cada vez mais raro.
- Ajuda a organizar pensamentos
- Estimula a criatividade
- Desenvolve a concentração
- Favorece a autonomia
“Reservar tempo de ócio, sem tela e sem atividade dirigida, é uma das ferramentas mais poderosas do desenvolvimento contemporâneo”, diz Mariana. Sem esse espaço, a criança perde a oportunidade de explorar, imaginar e aprender a se entreter por conta própria.
Adaptações no aprendizado
Na escola e em casa, o desafio é adaptar a forma de ensinar a um cérebro que funciona de maneira diferente. Isso não significa mudar o conteúdo, mas a forma como ele é apresentado. “O caminho não é competir com a tela, mas reconectar a criança com o concreto, com o corpo, com o ambiente e com o outro”, afirma Mariana Ruske.
Isso pode ser mais simples do que parece. Relacionar o conteúdo com o cotidiano, como usar uma receita para trabalhar matemática ou uma ida ao mercado para falar de quantidades, ajuda a dar sentido ao aprendizado. Atividades que envolvem movimento, como desenhar, montar ou experimentar, também aumentam o interesse.
Dar pequenas escolhas ao longo da rotina, como decidir por onde começar a lição, favorece o engajamento. Um ambiente organizado, sem telas por perto, e uma rotina previsível também contribuem para a concentração. Aos poucos, esses ajustes tornam o aprendizado mais natural e possível dentro da realidade de cada criança.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1521, de 15 de maio de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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