Por Renan Pereira e Lígia Menezes
“Eu estou amando essa fase dos 40+. Me sinto hoje com mais energia e mais vida do que alguns anos atrás.” A fala de Wanessa Camargo traduz seu momento. Depois de atravessar diferentes fases na carreira, experimentar estilos musicais variados e viver períodos intensos de exposição pública, a cantora chega aos 43 anos mais segura do que nunca, tendo a maternidade como prioridade.
Desde que se tornou mãe, ela diz que passou a enxergar o trabalho de outra maneira. A carreira continua sendo uma parte central de sua identidade, mas a dinâmica familiar ganhou outro peso nas decisões do dia a dia. “Para eu estar bem no trabalho, a minha casa, minha base, minha família precisam estar bem.”
Ela admite que conciliar carreira artística e maternidade ainda é um exercício constante e descreve a experiência de educar como um “equilíbrio de pratos” – principalmente entre proteger e permitir liberdade. “Permitir que eles aprendam com os próprios erros é muito difícil”, diz.
Como a maternidade transformou sua rotina e a forma de enxergar a si mesma?
Esse tem sido o meu desafio, acho que desde que me tornei mãe: manter meu trabalho ativo, forte, presente e, ao mesmo tempo, conciliar a maternidade e estar muito presente com meus filhos, sabe? Eu tive algumas pausas, principalmente em momentos muito importantes deles, quando eram pequenininhos e foram crescendo. Fui construindo minha rede de apoio para poder voltar a trabalhar com mais presença também. Mas é um equilíbrio de pratos o tempo inteiro, trabalhar essa eterna culpa o tempo todo. Tem horas que eu me sinto falhando um pouco na carreira, tem horas que me sinto falhando com eles. Mas tenho aprendido, com o tempo, que não importa o tempo que eu tenho em cada parte da minha vida e, sim, que eu possa estar muito presente. Mesmo quando estou longe deles, continuo presente, cuidando, vigiando. A cabeça e o coração de mãe não se desligam nunca dos filhos, não importa onde você esteja. É como se fosse 24 horas por dia. Meus filhos estão comigo, sabe? Estão no meu pensamento, no meu cuidado, na minha vigília. Mas é um desafio muito grande.
Você já falou sobre os desafios da vida pessoal nos últimos anos. Como foi conciliar esses momentos com o papel de mãe?
Eu amo a minha carreira, amo o meu trabalho, faz parte do meu DNA, de quem eu sou. Mas, depois que me tornei mãe, ficou muito claro para mim que, para eu estar bem no trabalho, a minha casa, minha base, minha família precisam estar bem. Porque, se ali não estiver tudo bem, eu não consigo estar bem no trabalho. Então, a minha prioridade são os meus meninos, minha família, as pessoas que eu amo, o cuidado, o olhar, a atenção, o tempo. Isso mudou completamente com a maternidade. É um amor tão incondicional, tão forte, tão precioso. Eu percebo que, se ali estiver tudo bem, eu consigo enfrentar qualquer coisa. Por isso, é o meu lugar de maior cuidado, de carinho e de prioridade.
Existe alguma culpa materna que você precisou aprender a lidar? Como você trabalha isso no dia a dia?
Eu não consigo separar em etapas a minha maternidade, não chega a ser uma culpa, porque a gente vai se desconstruindo e se reconstruindo, vai aprendendo o tempo todo. A maternidade não tem manual, não existe um livro ou um conselho que te ensine tudo. Claro que o maior exemplo vem daquilo que eu vivi. Eu tive e tenho uma mãe excelente, avós excelentes, que exerceram a maternidade com propriedade, força, amor, carinho e cuidado. Essa foi a minha escola.

Quais valores você faz questão de transmitir para seus filhos, especialmente vivendo sob os holofotes?
Eu acho que são alguns valores que eu tento trazer para os meus filhos: a verdade, de sempre ser verdadeiro, de se amar, se respeitar, para que a gente possa aprender a respeitar o outro. Eu acredito que a gente precisa primeiro se respeitar para conseguir respeitar também o outro, a liberdade do outro. Humildade, para que a gente entenda que não sabe tudo, aprender a ouvir. Determinação, para a gente não desistir quando está cansado, quando está difícil conseguir alguma coisa.
Tem algum momento simples da maternidade que, pra você, vale mais do que qualquer conquista profissional?
Os momentos mais incríveis da maternidade são aqueles inesperados. É um ‘eu te amo’ do nada, é um ‘eu estou com saudade’, é um beijo que você ganha do nada, é um sorriso que você vê. Eu fico muito feliz de vê-los fazendo alguma coisa que eles gostam e ver que eles estão felizes. Outro dia parei e fiquei vendo eles animados com os amigos, brincando e se divertindo. Aquilo me preencheu. Quando eu estou na cama deitadinha com os dois no meu braço. São esses momentos que me afagam mais do que qualquer outra coisa.
Que tipo de mãe você acha que é hoje e que tipo de mãe ainda deseja se tornar?
Eu sou uma mãe preocupada, que cuida, que está presente, que tem escuta. Eu busco muito ouvir meus filhos e quero me tornar cada vez mais capaz de escutá-los, de ter essa escuta mais ativa ainda. Porque muitas vezes, no dia a dia, a gente quer que eles sigam o caminho que a gente acredita que é melhor. E é muito difícil não ser, às vezes, autoritária ou querer comandar a vidinha deles. Permitir que eles aprendam com os próprios erros é muito difícil. A gente quer proteger demais, não quer que eles se machuquem. Acho que é uma busca minha como mãe: confiar mais nas escolhas deles com o tempo.
Como a figura de sua mãe, Zilú, influenciou na forma como você vivencia a maternidade atualmente?
A minha mãe foi uma mãe muito presente, muito ativa. Para mim, esse é o maior exemplo de estar perto, de estar junto, de cuidar. Ela me protegeu muito, muitas vezes, e eu levo isso comigo. Busco a minha própria forma de maternar, dentro da minha dinâmica com os meus filhos, porque são pessoas diferentes de mim. Mas ela me influenciou demais, principalmente nesse amor incondicional. É um exemplo gigantesco para mim.
Você completou 25 anos de carreira musical, transitando em diversos estilos. Existe algo que ainda não realizou e pretende concretizar?
Na minha carreira, eu sempre estou buscando desafios novos e concretizar coisas novas. Como ela é muito criativa, não tem um lugar que você já alcançou e pronto. O mais gostoso do meu trabalho é trabalhar com a criatividade, buscar aquilo que eu quero dizer em forma de música, de show, de linguagem. Eu não tenho muito esse lugar de querer conquistar algo específico. Eu quero continuar trabalhando com o que eu amo e tendo a minha criatividade pulsando. Isso é o que mais me dá prazer.
Como você definiria seu momento atual de carreira?
A minha carreira está num momento muito legal, de comemoração, de gratidão. São 25 anos de carreira, de rever essa história. Estou vivendo um momento de celebração, mas ao mesmo tempo já buscando caminhos novos. Também sinto um reconhecimento muito bonito do público, das pessoas, e isso é muito especial.
Você se vê, acima de tudo, como uma artista pop?
Eu me vejo como uma artista pop que transita por vários gêneros, que não tem medo de arriscar.
Wanessa, você já completou 43 anos e possui uma energia incrível. Como tem sido pra você a passagem do tempo? Sente alguma pressão neste sentido?
Eu estou amando essa fase dos 40+. Me sinto hoje com mais energia e mais vida do que alguns anos atrás. Acho que isso tem muito a ver com escolhas. Eu decidi ser feliz, ter liberdade, ser dona da minha vida. E isso me trouxe uma vontade gigante de viver. A juventude, para mim, não está ligada à idade, mas à forma como você vive a vida. Está na energia, não no número.
Ainda em relação às mudanças corporais, você já sente que está na perimenopausa? Sente mudanças no corpo e sintomas que antecedem a mudança hormonal?
Eu sei que depois dos 40, todas nós entramos no chamado climatério. Ainda não sinto efeitos claros da perimenopausa, mas já estou me informando sobre o assunto para que, quando vier, eu possa estar mais preparada. Porque eu acho que a informação é a melhor coisa que a gente tem na nossa mão.
Falar disso é muito importante para que não venha como um susto e cause um caos na sua vida. Então, eu tento manter uma alimentação boa, cuidar da minha saúde, lidar com o estresse. Acho que muito do que a gente precisa é encontrar esse caminho de estar feliz, de estar bem com a própria vida, porque tudo pesa menos depois. Não sinto ainda uma mudança hormonal grande que eu possa dizer que já estou passando por isso, mas provavelmente daqui a pouco eu entro nessa fase. E a melhor coisa que eu faço hoje é me informar, ler sobre o assunto e me preparar para isso.
Que conselho daria hoje para a Wanessa de 17 anos que estava começando a carreira musical?
Eu diria que está tudo bem. Você não precisa saber tudo com 17 anos, não precisa ser perfeita o tempo inteiro, nem agradar todo mundo. Eu diria para essa menina: se abrace, se acolha. Com o tempo, a gente aprende a não se importar tanto com o que os outros esperam da gente e a confiar mais em quem a gente é.
Pode nos falar sobre segredos de rotina e cuidados?
Eu gostaria até de me cuidar mais, de ter mais rotina, mas minha vida não tem muita rotina. O que eu consigo manter são alguns rituais de manhã, como água com limão, vitaminas, sucos. Tento manter uma alimentação saudável, mas também gosto de viver, sair e aproveitar. Faço o que é possível dentro da minha realidade.
Sobre espiritualidade, pode nos falar sobre suas crenças, práticas do cotidiano que te ajudam a entrar em contato com o seu lado espiritual?
A minha espiritualidade vem muito dos momentos em que eu converso com Deus. Eu respeito todas as crenças e gosto de estudar diferentes caminhos. Tenho meus rituais, meu momento de meditação, meu altar, minhas conversas com Deus. A música também é um lugar muito espiritual para mim. E estar com as pessoas que eu amo, ter um lugar de escuta, tudo isso faz parte da minha conexão comigo mesma e com o divino.
