O acesso ao dinheiro nunca foi tão simples. Com ferramentas como o Pix, cartões digitais e compras dentro de jogos, crianças e adolescentes passaram a consumir com poucos cliques, muitas vezes sem que os adultos percebam. Esse novo cenário tem levantado um alerta entre especialistas. O problema não está necessariamente na tecnologia, mas na forma como ela vem sendo usada no dia a dia. “A gente não está falando de crianças com dívidas formais, mas de um comportamento de consumo que começa muito cedo e sem orientação. Isso tem impacto direto na forma como esse indivíduo vai lidar com dinheiro na vida adulta”, explica Clariana Barcelos, especialista em educação financeira.
Dinheiro digital dificulta controle
Antes, o contato com o dinheiro envolvia troca física, esperar, contar e, muitas vezes, escolher. Hoje, essa experiência é diferente. Nos jogos online, por exemplo, as compras são feitas com moedas virtuais e recompensas imediatas. Isso pode dificultar a compreensão de valor, especialmente para crianças. “Para uma criança, gastar em um clique não tem o mesmo peso de entregar uma nota ou ver o dinheiro acabar”, afirma Clariana. Esse distanciamento torna o consumo mais impulsivo e menos consciente.
Na velocidade da luz
Outro ponto que preocupa é a velocidade. Com o Pix e cartões vinculados às contas dos pais, o intervalo entre querer e comprar praticamente desapareceu. Na prática, isso elimina etapas importantes do aprendizado financeiro, como planejar, esperar e fazer escolhas.
Emocional abalado
Além da facilidade de acesso, existe um fator que muitas vezes passa despercebido, o emocional.“Muitos pais, por falta de tempo ou por culpa, acabam cedendo com mais facilidade aos pedidos. O consumo vira uma forma de compensação emocional e isso é muito perigoso quando se torna um padrão”, alerta. O consumo, então, deixa de ser apenas uma escolha e passa a ter um papel afetivo.

Orientação
O caminho mais eficaz não está em restringir totalmente o acesso, mas em construir uma relação mais consciente com o dinheiro. Pequenas atitudes no dia a dia ajudam nesse processo:
- Tornar o valor das compras (em moedas digitais, nos jogos) mais concreto, explicando sempre o equivalente em reais;
• Estabelecer limites claros para gastos digitais, com regras combinadas;
• Evitar atender automaticamente todos os pedidos;
• Incluir a criança em decisões simples, como escolher entre gastar ou guardar;
• Falar sobre dinheiro de forma aberta e natural;
• Estimular compras físicas em mercados, por exemplo, para que a criança perceba a diferença de preços e o valor do dinheiro.
Erros comuns que dificultam o aprendizado
Alguns comportamentos, mesmo sem intenção, acabam prejudicando a educação financeira das crianças, pois reforçam uma relação imediatista com o consumo e dificultam a construção de limites.
- Tratar compras em jogos como algo sem impacto real;
• Liberar acesso a pagamentos sem acompanhamento;
• Evitar conversas sobre dinheiro;
• Usar consumo como recompensa ou forma de compensação;
• Ter dificuldade em dizer “não”.
Educação financeira começa cedo, mas não depende de ter muito dinheiro
Para Clariana, o foco não deve estar no quanto a criança tem, mas em como ela aprende a lidar com o dinheiro. Em um cenário em que o consumo acontece cada vez mais cedo e de forma invisível, o diálogo dentro de casa se torna a principal ferramenta para formar adultos mais conscientes e preparados.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1520, de 8 de maio de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
