Em muitas casas brasileiras, o dia começa cedo e termina tarde para uma mesma pessoa: a mãe. É ela quem organiza a rotina, resolve imprevistos, cuida dos filhos, acompanha contas e ainda encontra espaço para garantir a renda da família.
De acordo com uma pesquisa de agosto de 2025, feita pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com base em dados do IBGE, a cada 100 lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres.
Rédeas nas mãos
Quando uma mulher assume a frente do lar, ela vira referência viva de resiliência, autonomia e capacidade de cuidado. “Para as crianças, isso pode construir um ambiente em que o senso de responsabilidade e de cooperação familiar aparece de forma mais clara”, diz Marília Scabora, psicóloga obstétrica e fundadora da Comunidade Tribo Mãe, em entrevista à AnaMaria.
Segundo a especialista, as crianças aprendem principalmente pelo exemplo. Ao observar a mãe tomando decisões, trabalhando, resolvendo problemas e sustentando o funcionamento da casa, elas passam a desenvolver referências de autonomia, competência e responsabilidade. Esse modelo também amplia a percepção sobre o papel das mulheres na sociedade.
Meninas e meninos: lições diferentes do mesmo exemplo
O impacto pode variar entre meninas e meninos por causa das expectativas sociais de gênero que ainda existem. Para as meninas, ver a mãe ocupando esse lugar de liderança costuma fortalecer referências de independência, capacidade e protagonismo. “Elas passam a perceber que é possível ocupar espaços de decisão e autonomia na vida adulta”, aponta Marília.
Já para os meninos, surge uma importante lição de parceria. Esse modelo ajuda a ampliar a compreensão sobre o papel das mulheres e sobre a importância da corresponsabilidade nas relações familiares. “Eles aprendem a reconhecer a capacidade feminina e a desenvolver respeito e colaboração dentro das relações”, diz Daniele Caetano, psicoterapeuta e fundadora da Caminhos da Terapia.
A sobrecarga invisível
Se, por um lado, essa liderança transmite valores importantes, por outro, ela também pode vir acompanhada de uma exaustão perigosa. “Quando uma mulher precisa sustentar emocionalmente e financeiramente o lar, muitas vezes ela vive em estado constante de pressão e cansaço”, alerta Daniele. Essa sobrecarga pode gerar momentos de irritação, culpa ou sensação de insuficiência.
Quando o cansaço se prolonga, a disponibilidade emocional no cotidiano pode diminuir. Por isso, as especialistas ressaltam a importância de dividir responsabilidades sempre que possível e tornar o funcionamento da casa mais colaborativo.
Envolver os filhos em pequenas tarefas do dia a dia, desde organizar objetos até ajudar na rotina doméstica, também contribui para que eles compreendam melhor o esforço envolvido na manutenção da casa.

Time que joga junto
Mesmo em rotinas intensas, algumas atitudes ajudam a transformar essa liderança feminina em uma experiência de aprendizado para toda a família. Explicar decisões, manter o diálogo aberto e incluir os filhos nas responsabilidades cotidianas são estratégias que fortalecem o senso de pertencimento.
Quando as crianças percebem que fazem parte do funcionamento da casa, elas passam a entender que a família é um espaço de cooperação. Esse tipo de convivência também contribui para o desenvolvimento de empatia, autonomia e responsabilidade desde cedo.
Outro aspecto importante é reconhecer emoções e limites dentro da rotina. Demonstrar cansaço ou pedir ajuda, por exemplo, também ensina que cuidar uns dos outros faz parte da vida em família. “Essa transparência ensina às crianças que a força e a vulnerabilidade podem caminhar juntas”, diz a fundadora da Comunidade Tribo Mãe.
Transformações além da porta de casa
Lares assim revelam mudanças sociais profundas. Cada vez mais mulheres ocupam espaços de decisão, autonomia financeira e liderança dentro e fora de casa. “Essa realidade mostra que o poder feminino não está apenas na capacidade de acolher, mas na coragem de sustentar, reconstruir e transformar realidades, muitas vezes com uma força silenciosa que molda gerações”, reflete Daniele.
Ver a mãe no comando ensina que liderança também envolve cuidado e parceria. Essas famílias reescrevem, no cotidiano, o significado de força. “As crianças não precisam de uma mãe perfeita, mas de uma presença emocionalmente disponível dentro das possibilidades reais da vida”, resume Marília.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1514, de 27 de março de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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