Muitas famílias surgem sem planejamento, com uma gravidez inesperada. Outras se formam depois de uma longa conversa, de um desejo antigo ou de uma decisão amadurecida com o tempo. Para quem pensa em adotar, o caminho costuma vir acompanhado de muitas dúvidas e expectativas.
A adoção no Brasil segue um processo legal estruturado e gratuito. Hoje, cerca de 5.300 crianças e adolescentes estão aptos para adoção. Do outro lado, mais de 33 mil pretendentes aguardam na fila, segundo dados de 2025 do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
À primeira vista, os números sugerem que seria fácil formar novas famílias. Porém, existe um descompasso gritante nessa conta: apenas uma pequena parcela das crianças aptas para adoção é formada por bebês ou crianças muito pequenas, justamente o perfil mais buscado pelas famílias. Em contraste, a maior parte das crianças disponíveis tem mais de 8 anos, muitas vezes faz parte de grupos de irmãos ou possui alguma deficiência.
Esse cenário cria duas realidades distintas: filas longas para quem deseja adotar bebês e espera prolongada para crianças mais velhas.
Quem pode adotar uma criança no Brasil?
Uma dúvida comum de quem começa a pensar em adoção é se existe um perfil específico de pessoa que pode adotar. A legislação brasileira, no entanto, é bastante abrangente.
“No Brasil, qualquer pessoa maior de 18 anos pode adotar, independentemente do estado civil, desde que exista uma diferença mínima de 16 anos entre o adotante e a criança ou adolescente”, explica a advogada Nair Zuchini, especialista em direito administrativo e penal e membro da Comissão OAB Vai à Escola.
Na prática, isso significa que pessoas solteiras, casais heterossexuais e também casais homoafetivos podem participar do processo. O ponto central da análise feita pela Justiça não é o modelo familiar, mas as condições oferecidas para o desenvolvimento da criança.
Segundo a especialista, o Judiciário avalia se o ambiente familiar é seguro e se a pessoa ou o casal tem condições emocionais, sociais e estruturais para assumir essa responsabilidade.
Por onde começa a adoção no Brasil?
Para quem deseja iniciar o processo, o primeiro passo é procurar a Vara da Infância e Juventude da cidade onde mora e formalizar o interesse em adotar.
A partir daí, começa a etapa de habilitação, que envolve entrega de documentos, avaliações técnicas e participação em um curso preparatório sobre adoção. Entre os documentos exigidos estão certidões pessoais, comprovantes de renda e residência e atestados de saúde.
Os pretendentes também passam por uma avaliação psicossocial conduzida por profissionais da equipe técnica do Judiciário. Psicólogos e assistentes sociais analisam as motivações e a estrutura familiar para entender se aquele ambiente está preparado para receber uma criança.

Depois de habilitados, os interessados passam a integrar o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). “Esse sistema reúne dados de pretendentes e de crianças aptas para adoção no Brasil, permitindo que a Justiça faça a compatibilização entre os perfis”, explica Zuchini.
A legislação prevê que a etapa de habilitação seja concluída em até 120 dias, embora o tempo total até a adoção dependa da compatibilidade entre os perfis cadastrados.
O grande encontro
Quando o sistema identifica uma compatibilidade entre o perfil da família e o da criança, começa uma nova etapa do processo: o estágio de convivência.
Nesse período, a criança passa a morar com a família pretendente enquanto a equipe técnica acompanha a adaptação de todos os envolvidos. O objetivo é observar como o vínculo se desenvolve no cotidiano.
Se a convivência evolui de forma positiva, o juiz responsável pelo processo pode então proferir a sentença definitiva de adoção, que oficializa legalmente a nova família.
Esse acompanhamento também busca reduzir um problema que ainda preocupa especialistas: as devoluções. Desde 2019, cerca de 8,9% das adoções registradas no país passaram por essa situação, geralmente durante o período inicial de convivência.
Muito além da burocracia
Vale acrescentar que nem todas as crianças que vivem em instituições estão disponíveis para adoção no Brasil, já que muitas ainda passam por processos judiciais que buscam a reintegração à família de origem.
Embora envolva etapas jurídicas, documentos e avaliações, a adoção é, acima de tudo, um processo humano. Ele exige preparo emocional, abertura para novas realidades e disposição para construir vínculos.
No Brasil, milhares de crianças e adolescentes ainda vivem em instituições de acolhimento aguardando a chance de pertencer a uma família. Ao mesmo tempo, muitos adultos desejam viver a experiência da parentalidade.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1513, de 20 de março de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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