Na última terça-feira, 24 de março, o cirurgião plástico João Fernando dos Santos Mello, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), foi preso em flagrante em Porto Alegre quando se preparava para aplicar realizar um procedimento estético em uma paciente.
A força-tarefa formada por fiscais da Vigilância Sanitária Municipal, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul encontrou diversas irregularidades na clínica do cirurgião, incluindo produtos clandestinos, rótulos adulterados e até cola de secagem instantânea.
O conjunto de materiais apreendidos reforça a suspeita de que o médico se valia do nome de produtos regularizados na Anvisa, como o Linnea Safe, para encobrir a aplicação de substâncias clandestinas.
Duas vítimas são moradoras de Porto Alegre (RS) e afirmaram que procuraram o trabalho do médico devido a postagens que ele fazia de antes e depois com influenciadoras. Através de exames constatou-se que no procedimento, chamado de bioplastia, foi utilizado um produto não adequado, semelhante a um silicone industrial.
Especialista afirma que desinformação pode ser fatal
No centro desse debate está o alerta feito por Nelson Albino Neto, advogado que representa o laboratório fabricante de um dos produtos citados na investigação e que tem chamado atenção para um ponto crucial: a desinformação que cerca esse tipo de situação e como ela pode colocar pacientes em risco.
Para o advogado, um dos maiores problemas não está apenas na conduta irregular em si, mas na forma como esses casos são interpretados pela opinião pública. Segundo ele, “o uso da marca de produtos regularizados em situações criminosas como essa distorce o debate público, transferindo a culpa por agravos à saúde das pacientes a um produto regularizado na Anvisa, sequer utilizado no procedimento”.
Na prática, isso significa que substâncias clandestinas podem ser aplicadas enquanto o paciente acredita estar recebendo um produto aprovado, criando uma falsa sensação de segurança que começa no discurso e termina dentro do procedimento.
Isso teria acontecido com uma das denunciantes, que afirma que durante a consulta, o médico explicou os detalhes da conduta, assegurando que o produto, da marca Linnea Safe, tinha registro na Anvisa e era adequado para a bioplastia. Durante o procedimento, a paciente teria estranhado a cor do material, questionou o médico e ouviu que seria o mesmo produto, apenas com “densidade menor”. Dias depois, um exame de imagem comprovou que o produto implantado tinha características compatíveis com silicone industrial.
O alerta de Nelson Albino Neto vai além: ele reforça que a origem dessa confiança equivocada, muitas vezes, está nas redes sociais. “A segurança para um procedimento estético não vem de influenciadores ou de redes sociais, mas sim de profissionais sérios e qualificados, que utilizam produtos seguros e regularizados perante órgãos reguladores”, afirma.
É possível escolher um médico pelas redes?

Obviamente, não. A fala coloca em xeque um comportamento cada vez mais comum: escolher profissionais com base em indicações digitais, antes e depois e recomendações de influenciadores. Para o advogado, essa lógica inverte prioridades e pode abrir espaço para situações perigosas, em que a validação social pesa mais do que critérios técnicos.
Ao destacar esse cenário, ele também chama atenção para a responsabilidade do paciente. Em vez de confiar apenas na imagem construída online, é essencial buscar informações concretas. Saber exatamente qual produto será aplicado, verificar se ele possui registro na Anvisa, exigir comprovação da origem e confirmar a qualificação do profissional são passos que não podem ser ignorados.
O caso que motivou esse alerta expõe uma engrenagem preocupante: marketing digital, autoridade profissional e promessa de segurança funcionando juntos para criar credibilidade, mesmo quando há irregularidades graves por trás. E é justamente por isso que a fala do advogado ganha força, ao reposicionar o foco onde ele realmente deve estar: na informação correta e na escolha consciente.
