Quando dar conta já não basta
Você dá conta. Entrega. Resolve. Sustenta. Mas, em qualquer carreira, em qualquer empresa em que se trabalhe, existem atividades que não gostamos de fazer e, em um momento (ou muitos), acabamos nos questionando se aquilo faz sentido. Aliás, deveríamos nos questionar periodicamente sobre nosso trabalho e a carreira que trilhamos: ainda traz satisfação, reconhecimento, sustento financeiro? Permite a realização de sonhos? Há qualidade de vida?
Como essas respostas variam ao longo do tempo, é saudável fazer essa checagem para não se perder muito tempo em algo que já não preenche mais alguma, ou várias, áreas da vida. Enquanto a resposta para as suas perguntas principais for sim, tudo certo, foco em seguir adiante.
Quando o incômodo vira sinal
O problema real aparece quando a resposta é negativa. Ela já dá seus sinais quando nos sentimos exaustas e sem energia e quando a segunda-feira de manhã é a angústia do domingo à noite. Quem não entende suas próprias necessidades e não sabe quais áreas da vida são prioridade acaba empurrando a situação desconfortável com a barriga por um bom tempo. Já aquelas pessoas um pouco mais antenadas, atualizam seus CVs e começam a se candidatar para todas as vagas que aparecem, achando que, ao mudar de empresa, o incômodo vai embora.
Trocar de emprego não resolve tudo
São apenas as pessoas que realmente se conhecem que usam esse momento para refletir um pouco mais sobre a origem real da questão. Será que eu mudei como pessoa a ponto de não me satisfazer mais com aquilo que vinha fazendo até então? Ou será que o problema está na empresa mesmo?
Entender suas novas necessidades como profissional e onde seria um bom encaixe no mercado nem sempre é tarefa rápida. Esse mergulho de autoconhecimento pode durar meses e se a situação do atual emprego estiver insustentável é inevitável ter que escolher entre a sua saúde mental e o contracheque do final do mês. Com os boletos chegando, a escolha parece óbvia.
Não é à toa que os dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) apontam para um alarmante percentual de aproximadamente 30% dos trabalhadores brasileiros sofrendo com a síndrome de burnout. Dentre suas principais causas estão o excesso de demanda, a cultura do “dar conta de tudo” (principalmente para mulheres), ambientes tóxicos, insegurança e falta de controle.
O dinheiro do não
Mas, e se eu falasse que existe uma forma de tomar o controle da sua vida profissional diminuindo consideravelmente a insegurança? Esse é o “dinheiro do não”. Ou seja, o dinheiro guardado para as situações da vida em que colocar o “eu” em primeiro lugar é necessário, ainda que seja às custas do trabalho.
Tenho que ser justa e dar o crédito desse nome maravilhoso, “dinheiro do não”, para a atriz Denise Fraga, que diz ser esse o conselho a ser dado para atores iniciantes que ganham seu primeiro grande cachê: reservá-lo para o dia que quiserem dizer não a um determinado papel, peça de teatro ou projeto que não lhes agrade.
Construindo o seu dinheiro do não
Aqui não é diferente. Qualquer pessoa em início de carreira deveria separar um pedaço do seu salário e aplicá-lo para um dia de necessidade. No começo guarde o que der, que seja R$ 10, ou R$2, o importante é criar o hábito mensal de separar um pedaço do que se ganha para o futuro. À medida que se cresce na carreira, aumenta-se esse valor. Há teorias que falam em poupar 20% da renda líquida. Mas a verdade é que esse percentual vai depender dos seus objetivos de vida.
Outra verdade incômoda é que, ao ver o dinheirinho sobrando na conta, aparece aquela tentação de gastar (e a armadilha do “ah, mas eu trabalho tanto, mereço um mimo”, “só comprando uma bolsa nova para aguentar meu chefe hoje”, ou qualquer variação desse discurso). Quando o assunto é gasto, gosto muito de citar a Lilian Ferro, que tem um livro e um blog contando como ela se aposentou aos trinta anos de idade.
Como fica o “dinheiro do não”, então? Nas minhas mentorias aconselho que ele seja um colchão de um ano, ou seja, é preciso entender muito bem seus gastos mensais reais, somar eventuais novos gastos que uma pessoa empregada não teria (como o plano de saúde) e não esquecer de colocar nessa conta os gastos anuais (dividindo por 12). Depois multiplica-se o gasto mensal por 12 e temos o “dinheiro do não” (que deve sempre estar aplicado e não parado na sua conta bancária).
Autonomia não é luxo. É estrutura.
O “dinheiro do não” equivale à autonomia necessária para tomar decisões que realmente favoreçam a sua carreira, bancar uma mudança completa de cargo, uma capacitação que faça diferença no mercado e até mesmo empreender (nessa última opção, o dinheiro do não precisa incluir também o valor necessário para começar seu próprio negócio). Depois de embarcar na nova trajetória, vale repensar esse dinheiro, como o dinheiro para a aposentadoria, como foi o caso da Lilian.
O mais importante é que essa autonomia financeira empodera a mulher. E uma mulher empoderada pode pedir demissão se sentir qualquer tipo de assédio no trabalho, se estiver contaminada pelo ambiente profissional ruim ou se, simplesmente, estiver exausta. Ela pode escolher sair de um relacionamento tóxico e se bancar sozinha. Ela pode inclusive escolher não querer casar e não ter filhos. Ou focar um tempo grande na carreira e deixar a família um pouco mais para frente. Mas disso falamos na próxima coluna.

