Uma mensagem carinhosa, um vídeo que parece falar direto com você, um convite para conversar mais – basta rolar o feed do Instagram ou do TikTok para ter essa sensação de “acolhimento”. Para muitos idosos, esse contato vira um pequeno respiro no meio da rotina, especialmente quando a casa anda silenciosa demais. O problema começa quando essa “proximidade” assume papéis reais na vida.
Com vídeos criados por Inteligência Artificial e interações cada vez mais convincentes, golpes virtuais têm explorado justamente aquilo que todo mundo busca: vínculo, escuta e afeto. Por isso, não basta mais acompanhar nossos pais e avós nas redes, é preciso traduzir o mundo digital para quem veio de outra geração.
É IA ou é real?
A vulnerabilidade das pessoas mais velhas nas redes não nasce da ingenuidade, mas de um conjunto de fatores, como solidão, luto, aposentadoria e a redução do contato físico, que aumentam a busca por conexão. “O cérebro é um órgão social. Quando falta vínculo, ele procura sinal de pertencimento em qualquer lugar que pareça acolhedor”, explica Brunna Dolgosky, psicóloga e hipnoterapeuta.
Conteúdos criados com IA fornecem atenção constante, elogios e intimidade, ativando sistemas de recompensa e apego. Eles entregam imagem, voz e narrativa com precisão cada vez maior – e por isso confundem tanto os idosos, que sofrem, com o tempo, mudanças naturais no funcionamento cognitivo. “Isso não significa incapacidade, mas aumenta a chance de usar atalhos mentais, como confiar em tudo o que parece real”, afirma a psicóloga.
Golpes
Entre os golpes mais comuns estão o falso familiar pedindo dinheiro, o uso de autoridades ou celebridades para vender produtos e, principalmente, o golpe romântico. “Muitos idosos são solitários, possuem reservas financeiras e foram criados em um contexto diferente do nosso”, diz Victor Paiva, fundador da HIP, agência especializada em tecnologia.
“A pessoa não perde apenas dinheiro. Ela perde uma história interna”, explica Brunna. Ao descobrir que tudo era falso, é comum surgir vergonha, culpa, ansiedade e isolamento. “Esse luto é vivido como traição. E traição ativa redes emocionais muito primárias, ligadas a abandono e humilhação”, afirma.

Uma conversa sem julgamento
O tom da conversa faz toda a diferença. “Comece validando a necessidade legítima: ‘Faz sentido você querer companhia, atenção e conversa’”, orienta Brunna.
Em vez de acusações, perguntas abertas ajudam: “O que você sentiu quando essa pessoa falou com você?”. Quando o idoso se sente respeitado, ele compartilha. Quando se sente humilhado, ele se cala.
Victor reforça que o cuidado precisa ser contínuo. Criar o hábito de perguntar o que os pais ou avós viram de interessante na semana abre espaço para troca e aprendizado mútuo. “Jamais é sobre castigar ou investigar, mas educar e conversar”, diz. “A bronca aumenta vergonha e silêncio, e silêncio aumenta risco”, completa.
O trio de ouro
Para lidar melhor com conteúdos suspeitos, Brunna sugere um hábito simples: pausa, corpo e checagem. “Se der pressa, é sinal de perigo”, diz. Notar sensações físicas, como coração acelerado ou euforia, ajuda a identificar quando a emoção está no comando.
A checagem entra com perguntas práticas: quem é essa pessoa fora da rede? Existe algum pedido de segredo ou dinheiro? A história muda quando faço perguntas objetivas?
Sinais de alerta em interações virtuais
- Pedido de dinheiro ou dados pessoais;
- Urgência emocional (“é agora ou algo ruim acontece”);
- Pedido de segredo;
- Recusa em confirmar por ligação ou outro canal;
- Insistência para mudar de aplicativo (do TikTok para o WhatsApp, por exemplo).
Onde ficam as plataformas nessa história?
Do ponto de vista tecnológico, há responsabilidade das plataformas. “Elas controlam distribuição, alcance e velocidade do conteúdo”, afirma Eduardo Freire, estrategista de inovação e CEO da FWK Innovation Design. Medidas como rotulagem de conteúdo gerado por IA, resposta rápida a denúncias e mais barreiras antes de pedidos de dinheiro ajudariam a reduzir danos.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1507, de 6 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.







