Por Renan Pereira e Lígia Menezes
Após mais de uma década fora da televisão brasileira, Márcia Goldschmidt avalia sua trajetória. “Mudou tudo, menos a essência”, resume ao falar da forma como passou a se comunicar ao longo dos anos. Conhecida por conduzir programas baseados em conflitos familiares e histórias reais, ela afirma que nunca fez entretenimento. “Eu sempre lidei com a vida real. Só aprendi a falar isso sem pedir desculpa.”
Atualmente, ela mora em Portugal e é mãe de gêmeas – descreve a maternidade como um divisor de águas. “Larguei a TV e entrei em um trabalho ainda mais pesado: a maternidade”, diz. A rotina, segundo ela, envolve “culpa, responsabilidade e cansaço”.
Hoje, longe da programação diária da TV aberta, Márcia concentra sua atuação nas redes sociais, onde reconhece um ambiente mais hostil à reflexão. “A internet hoje premia o barulho, não a consciência. Eu escolhi continuar falando com quem pensa”, afirma. Para os próximos anos, ela diz que pretende reduzir o ritmo de trabalho, seguir escrevendo e aprofundar projetos voltados ao comportamento feminino e sua autonomia emocional.
Ao longo da sua trajetória na televisão, você transitou entre o entretenimento popular e temas delicados. O que mais mudou em você como comunicadora desde o início da carreira?
Mudou tudo, menos a essência. Eu sempre lidei com a vida – e a vida é feita de temas delicados. Mas aprendi a canalizar minha força motivacional e minha experiência de observação para trazer, de forma prática, uma consciência que as pessoas envolvidas na loucura do dia a dia não conseguem ver.
Eu nunca fiz entretenimento. Eu sempre lidei com a vida real. Só aprendi a falar isso sem pedir desculpa.
Durante muitos anos, você esteve à frente de programas que lidavam diretamente com conflitos familiares e agora traz conhecimentos e conselhos para o Instagram. Como é para você esse contato mais direto com a audiência?
É bom, mas difícil. Na televisão você tem tempo para construir uma ideia e um conceito. Hoje, nas redes, tudo é muito fast. O contato com a reação é imediato, porém passar ideias mais profundas em minutos e captar a atenção distraída, presa a conteúdos banais e “lacradores”, constitui um grande desafio.
Conseguir 30 milhões de views em um ambiente onde domina o conteúdo raso é um prêmio e também uma esperança. A internet é o espelho do mundo atual, onde a ilusão vende e é aplaudida, a mentira é idolatrada, as opiniões do mal são bem-vindas e a postura coletiva muda de time a cada minuto. Tudo pode mudar no post seguinte. Dá medo.
A internet hoje premia barulho, não consciência. Eu escolhi continuar falando com quem pensa.
Você deseja apresentar novamente um programa diário na TV brasileira?
Eu amo a televisão e tudo o que tenho devo a ela, que me permitiu estar junto ao grande público. Mas sinto que ela está na UTI. Não temos mais talentos e tampouco um público que aceite parar para assistir. Hoje tudo está no celular, hipnotizando as pessoas para a grande idiotice. Não sei se voltaria para a TV, mas diário com certeza não.
Você está sendo processada pelo cantor MC Daniel, pois emitiu sua opinião sobre a briga entre ele e a ex-companheira. Como vê isso? Sente-se intimidada com esse tipo de atitude?
Não tenho conhecimento de qualquer ação judicial contra mim.
Você já disse que se mudou do país porque desejava viver mais e trabalhar menos, e que começou a trabalhar muito cedo. Você vê hoje o trabalho na juventude como algo que gera desgaste na vida adulta?
Eu sou uma maluca produtiva, viciada em trabalho – e amo isso. Mas tenho a sensação de não ter aproveitado a vida no seu sentido lúdico, e isso me causa um grande desconforto. Larguei a TV e entrei em um trabalho/missão ainda mais pesado: a maternidade. E, a cada dia, acordo dizendo que vou trabalhar menos e desfrutar mais. Trabalhar demais me deu sucesso. Me tirou o direito de brincar.
Você afirmou que sua participação no MasterChef Celebridades incomodava os outros participantes. Pode nos dizer por que ficou com esse sentimento? Você se sentiu perseguida?
Eu nunca disse isso dessa forma. O que posso dizer é que não sei jogar personagem. Sou objetiva, reservada e real. Talvez isso incomode em ambientes onde a performance fala mais alto que a autenticidade. Não vejo como perseguição, vejo como incompatibilidade de postura. Eu não sei jogar personagem. Isso sempre incomodou.

Como é a rotina com suas filhas? Pode nos contar um pouco sobre isso?
A rotina com minhas filhas é simplesmente o maior desafio. Navego entre a culpa, a responsabilidade e o cansaço. São duas adolescentes, um quadro de saúde extremamente delicado e uma rotina de trabalho enlouquecedora. Não é para os fracos (risos).
Pensar em mim depois delas se tornou um milagre que peço todos os dias – e parece que ninguém ouve (risos). Maternidade não é romantizável. É resistência diária.
Você fala bastante de Deus e de sua espiritualidade. Pode contar como é sua rotina em relação a isso?
Eu sou kabbalista e acredito no poder da consciência. Estudo e tento entender os significados além das aparências, controlar minha reatividade e aceitar o que não posso entender. Sou contra religiões que hipnotizam as pessoas sem elevar o essencial. A fé cega anestesia; a consciência elucida. Espiritualidade é consciência. O resto é anestesia coletiva.
Você já afirmou que sentiu que “puxaram seu tapete” no SBT. Também já disse que uma apresentadora famosa era contra você na época. Pode detalhar mais esse momento?
Não vale a pena falar mais sobre isso. Eu tenho presença e capacidade, não preciso viver de histórias. Apenas me arrependo de não ter tido, naquela época, a maturidade e a sabedoria que tenho hoje para perceber a engrenagem sórdida e jogar com ela.
Eu sofri todos os bullyings possíveis. Tentaram me tirar o lugar. Não conseguiram me tirar a voz.
Quais são os principais projetos para 2026?
Viver e mudar a tradução disso. Aprender a controlar esse vício no trabalho e desfrutar mais a vida. Tenho grandes projetos: continuar escrevendo sobre o comportamento feminino, libertar mulheres do modo duo, das heranças submissas, do apego e da carência.
Quero continuar escrevendo meus livros, como Código RAI, as 10 leis do esforço mínimo trazendo luz para o universo obscuro das relações afetivas. Quero fazer palestras e imersões, libertando mulheres da dependência emocional, e continuar ensinando que podemos envelhecer sem ficar velhas e que temos controle sobre tudo isso.
Mas enquanto estivermos presas às armadilhas das influencers rasas, não vamos a lugar nenhum. Meu trabalho agora é libertar mulheres da submissão emocional.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1507, de 6 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.







