Um novo procedimento estético tem chamado atenção nos Estados Unidos — e causado preocupação entre especialistas. Batizada de AlloClae, a técnica utiliza gordura retirada de cadáveres para realizar preenchimentos e contornos corporais. Clínicas em estados como Nova York e Califórnia já registram alta procura, segundo reportagem do Business Insider.
Embora a empresa responsável afirme que o material passa por esterilização rigorosa e oferece efeito imediato, entidades médicas reforçam que ainda faltam estudos científicos robustos que comprovem segurança e eficácia. Ou seja, a promessa de praticidade pode esconder perigos importantes.
AlloClae: o que é e por que preocupa médicos
A empresa Tiger Aesthetics, desenvolvedora do AlloClae, destaca como principal vantagem o fato de não exigir cirurgia. O profissional aplica o produto por via subcutânea, o que, portanto, reduziria o tempo de recuperação. Além disso, a marca afirma que o efeito aparece rapidamente.
No entanto, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) alerta que o método carece de comprovação científica. Ouvida pelo Estadão, a dermatologista Bhertha Temura, doutora pela USP, reforça que não existem trabalhos consistentes que garantam a viabilidade e a durabilidade da gordura enxertada. Segundo ela, ainda restam dúvidas importantes: quais cadáveres são selecionados? Quais exames são feitos antes da coleta? E como ocorre a análise do material?
Entre as complicações possíveis, especialistas citam reações inflamatórias, formação de nódulos e até embolia — que pode desencadear AVC ou infarto. Além disso, o dermatologista Reinaldo Tovo, do Hospital Sírio-Libanês, chama atenção para o risco de infecção caso o doador tivesse doenças como hepatite ou HIV.

Riscos do procedimento estético com gordura de doador
Diferentemente do ácido hialurônico — que pode ser revertido com hialuronidase — a gordura tem caráter permanente. Portanto, se surgirem nódulos ou infecção após o procedimento estético, o paciente pode precisar de cirurgia para corrigir.
O cirurgião plástico Ronaldo Righesso, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e autor do livro All about fat: Ciência e arte no uso do tecido adiposo (Di Livros), lembra que a medicina já utiliza gordura para fins regenerativos desde os anos 2000. Contudo, esse uso geralmente envolve a própria gordura do paciente.
Segundo ele, com pequena quantidade retirada das coxas ou da região glútea, o médico já consegue volumizar áreas da face com maior segurança. Assim, especialistas questionam por que recorrer a um produto derivado de cadáver se há alternativa autóloga.
Embora existam exemplos de uso de tecidos de doadores mortos — como pele para curativos temporários e cartilagem para reconstrução nasal nos EUA —, no Brasil a venda de materiais provenientes de cadáveres não é permitida. Além disso, médicos avaliam que, pela ausência de comprovação científica, o AlloClae dificilmente obteria aprovação da Anvisa.
Resumo: O AlloClae utiliza gordura de cadáver em um novo procedimento estético que já faz sucesso nos EUA. Especialistas, porém, alertam para riscos como infecção, nódulos e embolia. A falta de estudos científicos robustos levanta dúvidas sobre segurança e eficácia.
No Brasil, a técnica não tem autorização e enfrentaria barreiras regulatórias.
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