A divulgação de que a Rússia estaria prestes a iniciar a aplicação de uma vacina contra o câncer, chamada Enteromix, gerou expectativa em pacientes oncológicos e familiares. A promessa é ousada: usar tecnologia semelhante à das vacinas de mRNA para estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar tumores. Mas, diante do entusiasmo, especialistas internacionais pedem cautela.
Até o momento, não há publicações científicas amplamente acessíveis que detalhem os resultados dos estudos realizados com a Enteromix, nem informações claras sobre a conclusão das três fases tradicionais de ensaios clínicos exigidas para novos medicamentos.
O que é a Enteromix?
A Enteromix está sendo desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, centro de pesquisa russo que também criou a vacina Sputnik V contra a Covid-19. Diferentemente das vacinas tradicionais, voltadas à prevenção, a proposta aqui é terapêutica: o imunizante seria aplicado em pessoas que já têm câncer, como parte do tratamento.
A tecnologia utilizada é baseada em RNA mensageiro, a mesma plataforma adotada por imunizantes como os da Pfizer-BioNTech e da Moderna contra a Covid-19. No caso do câncer, a lógica é diferente: o material genético é desenhado para ensinar o organismo a identificar proteínas específicas presentes no tumor de cada paciente.
O primeiro tipo de câncer a ser tratado com a Enteromix seria o melanoma, um dos tumores de pele mais agressivos.
Vacina personalizada não é novidade
A ideia de vacinas personalizadas contra o câncer não é exclusiva da Rússia. Segundo registros do site ClinicalTrials.gov, mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, há diversos ensaios clínicos em andamento no mundo testando imunizantes individualizados com tecnologia de mRNA para diferentes tipos de tumores.
Empresas como a BioNTech, por exemplo, desenvolvem pesquisas nessa linha. Em 2023, a companhia divulgou resultados preliminares de estudos com vacinas personalizadas para melanoma, combinadas a imunoterapia tradicional, em testes de fase 2.
O conceito é semelhante: sequenciar o tumor do paciente, identificar antígenos específicos e produzir uma vacina sob medida para estimular a resposta imunológica. Isso significa que não há produção em massa, já que cada formulação é adaptada ao perfil molecular do câncer de cada indivíduo.
Falta de transparência preocupa
O ponto que gera questionamentos em relação à Enteromix é a ausência de dados publicados em revistas científicas revisadas por pares. Em geral, novos tratamentos precisam passar por três etapas obrigatórias de testes clínicos em humanos:
- Fase 1, que avalia segurança e dose adequada
- Fase 2, que observa eficácia preliminar e efeitos adversos
- Fase 3, que compara o novo tratamento com terapias padrão em grupos maiores
Até agora, não há confirmação pública de que todas essas etapas tenham sido concluídas segundo padrões internacionais amplamente reconhecidos.
Além disso, ensaios clínicos costumam ser registrados em plataformas abertas, permitindo que a comunidade científica acompanhe desenho do estudo, número de participantes e resultados. No caso da Enteromix, essas informações ainda não estão disponíveis de forma detalhada.
Pode ser a cura do câncer?
É importante esclarecer que, mesmo em cenários mais otimistas, vacinas terapêuticas contra o câncer não significam necessariamente cura. O objetivo principal é melhorar a resposta do sistema imunológico ao tumor, reduzindo risco de progressão ou recorrência.
O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, o National Cancer Institute, já descreve há anos o desenvolvimento de vacinas terapêuticas como uma estratégia promissora, mas ainda em evolução. Segundo o órgão, a eficácia pode variar de acordo com o tipo de tumor, estágio da doença e perfil imunológico do paciente.
No caso da Enteromix, as autoridades russas afirmam que os testes em animais apresentaram resultados positivos. No entanto, estudos pré-clínicos não são suficientes para comprovar eficácia em humanos.

O que se sabe até agora
Até o momento, as informações disponíveis indicam que:
- A Enteromix utiliza tecnologia de mRNA
- O tratamento é individualizado, baseado no perfil do tumor
- O melanoma seria o primeiro alvo terapêutico
- Não há dados científicos amplamente publicados sobre eficácia e segurança em larga escala
Diante disso, a principal recomendação de especialistas internacionais é aguardar resultados consolidados e publicados em periódicos científicos antes de considerar a vacina como uma alternativa comprovada.
A pesquisa em imunoterapia e vacinas personalizadas contra o câncer avança em vários países, mas exige validação rigorosa. Em oncologia, esperança e evidência científica precisam caminhar juntas.
Resumo:
A Enteromix, vacina terapêutica contra o câncer desenvolvida na Rússia, usa tecnologia de mRNA e promete tratamento personalizado. No entanto, faltam dados públicos sobre ensaios clínicos e eficácia em humanos. Especialistas recomendam cautela até que estudos completos sejam divulgados.
Leia também:
Temos vacina contra câncer colorretal?








