Com vinte anos de trajetória entre o teatro e o audiovisual, Túlio Starling vive um momento especial na televisão. No ar como José Maria na novela Três Graças, o ator estreia no horário nobre das nove levando para a tela uma bagagem marcada pelo risco criativo, pela escuta em cena e por uma profunda reflexão sobre ética, ofício e humanidade. Nesta entrevista, ele fala sobre formação, processo, imprevisibilidade narrativa e o tipo de artista que busca ser.

Você já traz quase 20 anos de trajetória no teatro e no audiovisual, com mestres como Hugo Rodas e Zé Celso marcando sua formação. O que desse repertório de palco e risco criativo você sente pulsou mais forte na construção do José Maria em Três Graças?
“São experiências que estão sempre pulsando, mesmo sem eu me lembrar exatamente delas porque faz parte de um fundamento meu, de uma forja do meu corpo de ator. Tem uma coisa que o Zé e o Teatro Oficina me mostraram: o caminho concreto pra vontade de vida na contracenação. É um diapasão de percepção sobre escuta e troca, com o qual eu me norteio pra manter a navegação no presente. Às vezes consigo mais, às vezes menos. E agora que o Zé Maria tá tendo outros percursos na trama, convivendo com situações de maior temperatura, eu tenho chamado mais por essa eletricidade que o palco puxa da gente, já que os corpos presentes no acontecimento teatral não param em pé sem conexão entre si, que os mantêm no agora. No meio da correria do fazer televisivo é muito importante chamar pelo agora, pra navegar por ele, porque ele passa rápido num set de gravação. É preciso já estar nele antes de gravar. Na TV, o “valendo” é um instante”.

José Maria foge do arquétipo do protagonista tradicional e vive numa zona de imprevisibilidade. Como essa liberdade narrativa amplia suas possibilidades como ator e te desafia a cada nova virada da trama?
“A experiência da obra aberta tá mais forte pra mim nessa novela. Eu comecei sabendo muito pouco do personagem. Entendia que ele tinha um compromisso forte com o ofício médico e uma relação importante com a Xênica, sua mãe. E só. E até o compromisso com o ofício médico poderia ser algo a ser mudado, caso viessem capítulos que narrassem alguma desonestidade dele com o esquema dos remédios falsos. Não era uma tendência, mas eu não descartava essa possibilidade. Agora, com a índole dele definida, eu sigo nesse namoro gostoso com o inesperado, já que a trama tá cada vez mais urgente, pra esperar qualquer acontecimento dele, da Xênica e da Kellen no enfrentamento ao esquema do Ferette e da Arminda. E esse exercício de estar aberto pra qualquer movimento narrativo é especialmente prazeroso. Porque é divertido ir agregando alguma informação sobre o personagem que é nova pra você, mas que deva soar como algo pregresso, que sempre esteve ali, que sempre fez parte dele. É um brinquedo dramático muito legal de brincar”.
Você faz um paralelo entre o ofício do ator e o do médico, ambos voltados para o outro. De que forma essa visão ética do trabalho influencia suas escolhas em cena e aprofunda a humanidade do personagem?
“Esse é o esteio da minha compreensão do Zé Maria. É a aproximação da ética do personagem através da minha experiência de mundo. É onde encontro o coração do personagem. No entanto, o desafio é fazer isso caber nas cenas com simplicidade, sem densidade excessiva. Nem sempre acerto isso. Eu gosto muito de fazer novela porque exercito o parâmetro da síntese, que é algo fundamental pra qualquer experiência cênica. E é uma síntese em movimento, de uma trama que começa estabelecendo os pressupostos básicos da história e vai avançando por cento e tantos capítulos. Então você vai acumulando materialidade narrativa pra seguir sintetizando a cada cena. E o compromisso ético do Zé Maria com a medicina tá no início desse novelo em trama”.

A denúncia dos medicamentos falsificados coloca José Maria em rota de colisão com forças poderosas da novela. Como foi para você mergulhar nesse conflito entre ciência, verdade e as consequências pessoais que ele passa a enfrentar?
“Pois é. Esses são os pontos da estrutura narrativa do Zé Maria que eu tenho tido que sintetizar e agora com mais um ponto, que é a contemplação de uma experiência profunda com a empatia, através da solidariedade da Kellen com ele na prisão. Isso gera uma identificação que convida os dois a um encontro amoroso. Mas um encontro amoroso bastante autêntico pra um folhetim, na minha opinião, porque começa através do amparo diante da penúria dele com a injustiça e a prisão. Aí é equilibrar os pratinhos, entender a estrutura de cada cena, que se desenvolve através das relações com os personagens presentes e com a situação específica da cena, pra encontrar os melhores caminhos que o estudo prévio e aquele dia de gravação apresentar”.

Aos 35 anos, vivendo um momento de consolidação sem perder o olhar de aprendiz, o que esse papel em Três Graças representa na sua caminhada artística e que tipo de artista você sente que está se tornando a partir dele?
“Eu sempre entendi novos trabalhos como oportunidades novas de exercitar o ofício num desafio diferente. Isso desde sempre, desde os meus primeiros espetáculos lá no início dos anos dois mil. Mas com o passar do tempo, essa prerrogativa do aprendizado vai dividindo espaço com a pressão pelo acerto. Porque a carreira pra nós é muito difícil mesmo. A gente convive muito concretamente com a ideia de que oportunidades são raras e você precisa aproveitá-las ao máximo. E você de fato deve aproveitá-las, mas essa pressão pode ser bem cruel também, dependendo de como você deixa isso afetar a sua alegria. Se você deixar o trabalho te dar mais tensão do que alegria, você tá invertendo a principal lógica da vida. “Gente é pra brilhar”, escreveu o poeta Maiakovski. “Não pra morrer de fome”, completou Caetano. Nosso trabalho como artistas é matar a fome que as pessoas têm de sonhar. Três Graças é a minha primeira novela das nove, é uma oportunidade muito importante pra minha carreira, e o meu desafio está sendo fazer com todo o rigor que gosto de ter, só que com alegria. E isso é técnica, é estudo, é fundamento. Aprender o máximo, tensionar o mínimo. Alegria relaxa, dá fluxo. Nem sempre consigo, mas é o que persigo”.
Com José Maria, Túlio Starling entrega uma atuação atravessada pela escuta e pela presença, revelando um artista que constrói no detalhe e no afeto. O personagem ganha força justamente nessa entrega cuidadosa, que espelha a maturidade de quem entende que o rigor do ofício não limita, mas amplia, e que é no encontro genuíno com o outro que a atuação encontra sua maior alegria.








