O recente surto do Vírus Nipah na Índia e em Bangladesh levantou uma dúvida comum: afinal, todos os morcegos representam perigo para a saúde humana? A resposta curta é não. No entanto, a discussão exige contexto, ciência e informação de qualidade — especialmente para evitar medo desnecessário e desinformação.
Logo nos primeiros dias do surto, autoridades de saúde monitoraram os casos e reforçaram protocolos. Em seguida, o Ministério da Saúde brasileiro afirmou que o risco de uma pandemia no país é baixo. Ainda assim, entender como o Vírus Nipah circula ajuda a esclarecer por que ele chama tanta atenção.
Vírus Nipah: o que ele é e como se transmite?
O Vírus Nipah é uma zoonose, ou seja, passa de animais para humanos. Os principais hospedeiros naturais são morcegos frugívoros do gênero Pteropus, conhecidos como raposas-voadoras. Esses animais vivem sobretudo no Sudeste Asiático, na Oceania, em Madagascar e em partes da África.
A transmissão ocorre, principalmente, pelo consumo de frutas contaminadas por saliva ou secreções desses morcegos, além do contato direto com animais infectados, como porcos. Também pode haver transmissão entre pessoas, porém de forma limitada e associada a contato íntimo e prolongado com fluidos corporais. Portanto, diferentemente da COVID-19, o Nipah não se espalha com facilidade pelo ar.
Segundo o infectologista Fernando Dias e Sanches, da UFRJ, ouvido pela Veja, essa característica reduz bastante o potencial de disseminação global. Além disso, embora a letalidade seja alta — entre 40% e 70% —, esse fator dificulta a propagação do vírus.

Morcegos, raposas-voadoras e o papel ecológico da espécie
Apesar da associação com o Vírus Nipah, é fundamental destacar que nem todos os morcegos transmitem doenças. A raposa-voadora, por exemplo, impressiona pelo porte: algumas espécies chegam a 1,5 metro de envergadura. Ainda assim, alimentam-se apenas de frutas, flores e néctar.
De acordo com o Aquário de São Paulo, esses animais exercem um papel essencial na natureza, pois dispersam sementes e contribuem para a regeneração das florestas. Inclusive, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) já classificou a espécie como “em perigo”, depois “vulnerável” e, mais recentemente, “quase ameaçada”.
Ou seja, embora sejam morcegos associados ao Vírus Nipah, eles não devem ser vistos como vilões, mas como parte importante do equilíbrio ambiental.
Brasil está em risco de uma pandemia?
Atualmente, a raposa-voadora não vive no Brasil. Ainda assim, autoridades consideram, em tese, a possibilidade de casos importados por viagens internacionais. Por isso, o Ministério da Saúde mantém vigilância ativa, em articulação com a Fiocruz, o Instituto Evandro Chagas e a Opas/OMS.
Segundo a pasta, o surto mais recente registrou apenas dois casos confirmados, ambos entre profissionais de saúde, sem disseminação internacional. Além disso, 198 contatos foram monitorados, todos com testes negativos, indicando controle do episódio.
Especialistas reforçam que, embora o risco não seja zero, ele permanece baixo. O maior desafio está no equilíbrio entre letalidade, capacidade de transmissão e ausência de tratamentos específicos.
Espécies de morcegos mais comuns no Brasil
Com 178 espécies registradas, o Brasil tem uma grande diversidade de morcegos, a maioria tem dietas variadas (frutas, insetos, néctar). De acordo com a Associação dos Controladores de Vetores e Pragas Urbanas (APRAG) esses animais são cruciais para o ecossistema.
Morcego-de-cara-branca (Artibeus lituratus): É o mais comum em áreas urbanas e florestais. Frugívoro (come frutas como goiaba e banana), ele dispersa sementes, auxiliando na regeneração de matas. Não representa risco maior de raiva do que outros mamíferos infectados, como cães e gatos.
Morcego orelha-de-funil (Natalus macrourus): Espécie menor e discreta, principalmente insetívora, ajudando no controle de mosquitos em ambientes rurais e urbanos. Prefere cavernas e árvores em áreas preservadas.
Morcegos-vampiros (Hematófagos): Apenas três espécies se alimentam de sangue:
- Desmodus rotundus (comum): Prefere sangue de mamíferos (gado).
- Diaemus youngi (asa-branca): Prefere sangue de aves.
- Diphylla ecaudata (pernas-peludas): Prefere sangue de aves.
Ao contrário do mito, eles não “chupam” sangue, mas mordem suavemente e lambem o sangue, que não coagula devido a substâncias na saliva. Ataques a humanos são extremamente raros. Mesmo os hematófagos têm seu papel nas cadeias alimentares e devem ser respeitados.
No fim, os morcegos são indispensáveis
Embora algumas espécies chamem mais atenção por seus hábitos alimentares, os morcegos brasileiros são em sua maioria animais benéficos e essenciais para a saúde dos nossos biomas. Eles ajudam a dispersar sementes, polinizar plantas e controlar pragas — serviços que sustentam florestas, agricultura e biodiversidade.
Resumo: O Vírus Nipah voltou ao noticiário após surtos pontuais na Ásia, mas o risco para o Brasil é considerado baixo. Nem todos os morcegos transmitem o vírus, e a espécie associada a ele tem papel ecológico fundamental. Informação e vigilância seguem como as melhores formas de prevenção.
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