Conversas diárias, troca de mensagens, planos que começam a tomar forma — até que, sem aviso, a pessoa desaparece. Não responde, não explica, não se despede. Esse comportamento tem nome: ghosting. E, embora seja cada vez mais comum, está longe de ser inofensivo.
Com a popularização dos aplicativos de relacionamento, novas dinâmicas passaram a fazer parte da vida amorosa. Algumas ampliaram as possibilidades de encontro. Outras trouxeram práticas que afetam diretamente a autoestima, a confiança e a forma como as pessoas constroem vínculos.
“Os aplicativos de relacionamento facilitaram o encontro, mas criaram uma sensação de descartabilidade”, observa a terapeuta de relacionamentos Rosângela Matos. “Tudo se tornou rápido: combina, conversa, sai, e, se algo não agrada, basta deslizar o dedo e tentar novamente”, diz.
Relações superficiais
O excesso de opções, comum nos aplicativos, mudou a lógica do envolvimento. Se antes o investimento em uma relação exigia mais tempo e disponibilidade emocional, hoje a ideia de que sempre haverá alguém “melhor” a poucos cliques de distância reduz a tolerância às frustrações naturais do começo.
“O excesso de opções reduziu a paciência e fez muita gente desaprender a construir vínculos”, afirma Rosângela. Nesse cenário, conversas são interrompidas sem explicação, encontros são desmarcados sem retorno e términos acontecem por mensagens curtas, quando acontecem.
Ghosting
O ghosting acontece quando alguém decide encerrar uma interação sem comunicar sua escolha. Não há conversa, explicação ou fechamento. Apenas o silêncio. “É um dos comportamentos mais comuns e também mais prejudiciais”, diz a terapeuta. “Ele fere a autoestima e deixa um vazio difícil de elaborar”, acrescenta.
Quem fica, costuma tentar preencher o silêncio com dúvidas e autocríticas: será que fiz algo errado? Não fui interessante o suficiente? Esse tipo de questionamento é frequente, mas injusto. O sumiço fala muito mais sobre quem evita o diálogo do que sobre quem foi deixado sem resposta.
Medo de confronto
Outro costume que ganhou espaço é o fim de relacionamentos por mensagens de texto, mesmo quando já existe envolvimento emocional. Em alguns casos, a escolha revela mais sobre a dificuldade de lidar com o desconforto do que sobre a relação em si. Evitar o desconforto imediato pode parecer mais fácil, mas transfere toda a carga emocional para o outro.
Medo de se envolver
Por trás dessas práticas, há um ponto em comum: a dificuldade de lidar com o envolvimento emocional. “Existe medo de se envolver, de criar expectativas, de se frustrar e, ao mesmo tempo, falta de clareza sobre o que se busca”, diz Rosângela. Evitar frustrações, nesse caso, significa também evitar conexões reais.
Responsabilidade afetiva não é obrigação, é respeito
Entrar em um relacionamento, ainda que casual, envolve responsabilidade afetiva. Isso não significa prometer sentimentos, mas comunicar limites, intenções e decisões com honestidade. Encerrar uma relação não precisa ser dramático, longo ou justificativo. Mas precisa existir. O silêncio, nesse contexto, não é neutro: ele machuca.
É possível se relacionar melhor na era digital?
“A saída é resgatar a intenção. Ter propósito, desacelerar, viver as etapas e observar quem o outro é, em vez de projetar o que se gostaria que fosse”, sugere a especialista. A velha máxima de não fazer com o outro o que você não gostaria que fizessem com você, sabe? Os relacionamentos mudaram, mas o impacto emocional continua o mesmo. O desafio agora é usar as ferramentas digitais sem abrir mão do básico: respeito, clareza e responsabilidade.

A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1503, de 9 de janeiro de 2025). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.








