O caso do Cão Orelha, morto em janeiro deste ano na Praia Brava, em Florianópolis, atravessou as redes sociais e provocou comoção nacional. O cachorro vivia há anos na região, era cuidado por moradores e fazia parte da rotina da comunidade. Por isso, sua morte não abalou apenas quem ama animais, mas também quem se preocupa com o tecido social das cidades.
Após o episódio, quatro adolescentes passaram a ser investigados pelas autoridades. No entanto, como reforça a psicoterapeuta e pesquisadora Renata Roma, da University of Saskatchewan, no Canadá, o foco não deve se restringir ao ato isolado.
Situações de maus-tratos animais funcionam como sinais de alerta importantes sobre contextos de risco mais amplos. De acordo com Renata, a ciência já demonstrou que existe uma relação consistente entre esse tipo de violência e a violência contra humanos — algo que não pode mais ser ignorado.
Maus-tratos animais e a ligação com violência contra humanos
A especialista explica que pesquisas publicadas ao longo da última década identificaram uma associação clara entre crueldade contra animais, agressões interpessoais, violência doméstica e comportamentos antissociais. Esse fenômeno é conhecido internacionalmente como The Link.
“Quando uma criança ou adolescente cresce em um ambiente onde a violência contra um animal é praticada por uma figura que ele admira, isso pode ser internalizado como algo normal”, afirma. Além disso, estudos mostram que, em muitos lares, a agressão a animais acontece ao mesmo tempo em que ocorrem abusos contra crianças ou violência entre adultos.
Ainda que não exista determinismo, a correlação é forte. “Não é uma relação de causa direta, mas é uma conexão séria o suficiente para ser levada muito a sério”, reforça a especialista. Jovens envolvidos repetidamente em agressões contra animais, por exemplo, apresentam maior risco de se envolverem em episódios de violência contra pessoas no futuro.

Cão Orelha, empatia e a falha em tratar a violência como sistema
O caso do Cão Orelha também escancara uma contradição social. Apesar das evidências científicas acumuladas, os animais ainda não são plenamente reconhecidos como sujeitos de direito na maioria dos sistemas jurídicos, sendo tratados como propriedade.
Segundo Renata, essa separação é artificial. No entanto, na prática, a sociedade costuma fragmentar as respostas: o animal vira apenas um caso de maus-tratos animais, enquanto o jovem é tratado como um problema isolado — e a discussão termina ali.
Por isso, muitos pesquisadores defendem respostas integradas, envolvendo proteção animal, serviços sociais e avaliação em saúde mental. “Quando a gente não leva a sério a violência contra animais, perde oportunidades importantes de identificar ambientes de risco e intervir mais cedo”, alerta Renata.
Prevenção, cuidado e responsabilidade coletiva
Reconhecer a ligação entre maus-tratos animais e violência contra humanos não significa proteger os animais apenas para evitar danos às pessoas. Como reforça a pesquisadora, os animais merecem proteção por si só. Ainda assim, o conhecimento científico torna ainda mais urgente a criação de leis mais fortes, protocolos integrados e políticas públicas consistentes.
Casos como o do Cão Orelha não deveriam gerar apenas indignação momentânea. “Quando um animal é agredido, isso diz algo sobre aquela comunidade, sobre como a empatia está — ou não — sendo construída”, reflete Renata.
Enquanto esses episódios forem tratados como exceções, a sociedade continuará chegando tarde demais. “Se queremos comunidades mais seguras, empáticas e humanas, precisamos começar a levar a sério o que a ciência já vem mostrando há anos”, conclui.
Resumo: O caso do Cão Orelha revela que a violência contra animais está ligada a contextos sociais mais amplos. A ciência confirma essa conexão há anos. Agora, o desafio é transformar conhecimento em prevenção, empatia e ação coletiva.
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