Ele aparece no topo dos rankings, custa pouco, é simples de usar e tem um nome que causa estranhamento logo de cara. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, um aplicativo virou febre na China nas últimas semanas e passou a liderar a lista dos mais baixados no país. O motivo não está em jogos, filtros ou promessas de produtividade, mas em um medo silencioso que cresce entre quem vive sozinho.
Segundo matéria publicada na BBC News, o aplicativo atende principalmente jovens adultos que moram longe da família e que convivem com a possibilidade de passar dias sem qualquer contato humano direto. Em um país onde o número de pessoas vivendo sozinhas cresce rapidamente, a proposta encontrou terreno fértil.
Você está morto?
O nome do aplicativo já diz muito sobre a angústia que ele tenta resolver: Você está morto? A lógica é simples: a cada dois dias, o usuário precisa fazer um check-in no celular, clicando em um botão grande na tela, para confirmar que está bem. Caso isso não aconteça dentro do prazo, o sistema envia automaticamente uma mensagem para um contato de emergência previamente cadastrado, alertando que algo pode estar errado.

A ideia é evitar que alguém passe mal, sofra um acidente ou até morra sem que ninguém perceba. O conceito, embora básico, tocou em uma preocupação real de quem vive sozinho em grandes centros urbanos.
Solidão urbana em números
Estimativas divulgadas por institutos de pesquisa chineses indicam que, até 2030, o país pode ter cerca de 200 milhões de pessoas morando sozinhas. Esse dado ajuda a explicar por que um aplicativo com essa proposta ganhou tanta visibilidade em tão pouco tempo.
O próprio app se descreve como uma “companhia segura” para profissionais que vivem sozinhos, estudantes longe de casa ou qualquer pessoa que optou por um estilo de vida mais solitário. Nas redes sociais chinesas, usuários relatam medo de passar dias sem contato com ninguém e de não ter a quem pedir ajuda em uma emergência.
O relato de quem decidiu baixar
Um dos usuários entrevistados pela BBC News foi Wilson Hou, de 38 anos. Ele trabalha em Pequim e mora a cerca de 100 quilômetros da família. Embora volte para casa duas vezes por semana para ver a esposa e o filho, passa a maior parte do tempo dormindo no trabalho ou em um imóvel alugado.
“Minha preocupação era que, se algo acontecesse comigo, eu poderia morrer sozinho e ninguém ficaria sabendo”, relatou. Por isso, decidiu baixar o aplicativo e cadastrar a própria mãe como contato de emergência. Ele conta ainda que se apressou em instalar o serviço logo após o lançamento, com receio de que o app fosse retirado do ar por conta do nome considerado negativo.
Nome polêmico
Nem todo mundo reagiu bem à escolha do nome. Houve críticas nas redes sociais, com usuários dizendo que a expressão poderia atrair má sorte ou deveria ser substituída por algo mais positivo, como “Você está bem?” ou “Como você está?”.
O título, no entanto, é um trocadilho. Em mandarim, a expressão usada no aplicativo soa muito parecida com a de um popular serviço de entrega de comida, o que ajudou a torná-lo memorável. Para muitos analistas, esse detalhe contribuiu diretamente para o sucesso viral.
A empresa responsável, Moonshot Technologies, afirmou que avalia a possibilidade de mudar o nome, mas reconhece que ele ajudou a chamar atenção para o serviço.
Do gratuito ao topo dos pagos
Lançado inicialmente de forma gratuita, o aplicativo passou a ser pago por um valor baixo, cerca de 8 yuans. Mesmo assim, alcançou o topo dos rankings na China e passou a figurar entre os mais baixados em países como Estados Unidos, Singapura, Hong Kong, Austrália e Espanha, possivelmente impulsionado por chineses que vivem no exterior.
Pouco se sabe sobre os criadores. Eles afirmam ser três jovens nascidos após 1995, que desenvolveram o app com uma pequena equipe na cidade de Zhengzhou. Agora, com a popularidade, planejam captar investimento e ampliar o público.
Um novo público no horizonte
Entre os planos anunciados está a criação de uma versão voltada para idosos, um grupo que representa cerca de 20% da população chinesa. Em publicações recentes, a empresa afirmou querer chamar atenção para pessoas mais velhas que vivem sozinhas, destacando a importância de cuidado, acompanhamento e respeito.
A proposta indica que o aplicativo, apesar do nome provocativo, toca em um tema sensível e cada vez mais presente: a solidão em grandes cidades e o medo de desaparecer sem que ninguém perceba.
Resumo:
Um aplicativo com nome provocativo se tornou o mais baixado da China ao oferecer um check-in simples para quem mora sozinho. A proposta ganhou força em meio ao aumento da solidão urbana, especialmente entre jovens adultos. O sucesso levanta debates sobre saúde emocional, envelhecimento e novas formas de cuidado mediadas pela tecnologia.
Leia também:
Transforme sua rotina com apps gratuitos








