Embora o perfeccionismo pareça sinônimo de dedicação, ele muitas vezes funciona como um gatilho de autossabotagem. Isso acontece porque, ao estabelecer padrões inalcançáveis, você cria expectativas que exigem esforço contínuo. Como resultado, surge a sensação de que qualquer deslize representa fracasso. Esse tipo de pressão afeta a produtividade, o humor e a autoestima. Além disso, a busca constante por desempenho impecável aumenta a ansiedade e reduz a sensação de realização.
Ainda que algumas pessoas associem esse comportamento ao sucesso, o excesso de autocobrança gera desgaste emocional. Portanto, compreender como ele se manifesta no cotidiano ajuda você a perceber quando a rigidez ultrapassa o limite do saudável.
Por que o perfeccionismo nasce – e por que ele se repete
Mesmo que traços individuais influenciem o perfeccionismo, especialistas reforçam que fatores ambientais também moldam esse padrão. Segundo a psicóloga da saúde Sula Windgassen, em entrevista ao podcast Complex da BBC Sounds, experiências da infância, expectativas familiares e modelos escolares rígidos ajudam a construir a ideia do que seria “suficiente”. Com o passar dos anos, esse modelo se cristaliza e, muitas vezes, permanece mesmo quando já não faz sentido.
Além disso, padrões perfeccionistas alimentam a procrastinação. Quando o medo de falhar domina, a pessoa tende a adiar tarefas importantes para evitar a possibilidade de um resultado “imperfeito”. Esse comportamento, portanto, reforça a autossabotagem, criando um círculo vicioso difícil de quebrar sem consciência e orientação.
Caminhos possíveis para interromper a autossabotagem
Apesar do desconforto inicial, é possível romper esse ciclo. Em psicologia, uma estratégia prática envolve os chamados “experimentos comportamentais”. Esse processo consiste em questionar, de maneira consciente, o que você acredita que acontecerá caso o resultado não atinja o padrão ideal. Em seguida, você testa essas hipóteses na vida real. Frequentemente, o cenário imaginado se prova muito mais ameaçador do que o que realmente ocorre.

Ao adotar esse tipo de experimento, você cria espaço para metas flexíveis, reduz a autocobrança e começa a lidar com imprevistos de forma mais leve. Além disso, essa prática fortalece a capacidade de reconhecer limites — um passo essencial para diminuir comportamentos de autossabotagem.
Quando o perfeccionismo ajuda — e quando ele exagera
Existem formas saudáveis de perfeccionismo. Uma delas, o perfectionistic striving, aponta para metas ambiciosas ajustáveis, que respeitam limites e circunstâncias. Quando você adapta objetivos conforme mudanças da vida, o estresse diminui e o desempenho melhora. Contudo, especialistas alertam para o excesso. Um estudo da British Psychological Society (julho de 2025) identificou que metas extremamente altas prolongam jornadas de trabalho e aumentam o desgaste, sem oferecer ganhos reais de produtividade.
E aqui está a informação mais importante — e que merece ser lida com calma: segundo Windgassen, a sensação de desconforto ao tentar agir de forma diferente não indica erro. Na verdade, indica mudança. Por isso, ao reconhecer esse incômodo como parte natural do processo, você abre espaço para transformar o perfeccionismo em um comportamento mais gentil consigo mesma, sem recorrer à autossabotagem.
Resumo: O perfeccionismo pode motivar, mas também pode criar medo de falhar. Ambientes rígidos reforçam padrões difíceis de quebrar. É possível mudar com prática e autoconhecimento. A verdadeira virada acontece quando aceitamos metas flexíveis — e quando entendemos que o desconforto faz parte da mudança.
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