Olá, pessoal!
Neste mês, vamos falar sobre a popular “gordura no fígado”. Trata-se de uma condição cada vez mais relatada pelos pacientes em consultas. A esteatose hepática, como é denominada formalmente, já é a doença crônica do fígado mais frequente no mundo. Geralmente, por ser uma condição assintomática, o diagnóstico é realizado como um “achado” de exame após a realização de ultrassom de abdome solicitado por algum outro motivo.
Estima-se que cerca de 30 % da população mundial tenha gordura no fígado, sendo essa condição mais frequente nos homens. Sua prevalência vem aumentando, acompanhando o crescimento do número de pessoas com sobrepeso e obesidade, em grande parte devido à má alimentação e ao sedentarismo.
A doença caracteriza-se pelo acúmulo de gorduras em mais de 5 % nas células hepáticas (hepatócitos). A esteatose ocorre pela diminuição da oxidação de ácidos graxos pelo fígado, o que leva à formação de radicais livres e infiltração gordurosa nos hepatócitos, alterando a textura do órgão e aumentando suas dimensões.
Os principais fatores de risco são:
– Consumo crônico e excessivo de álcool;
– Doenças metabólicas como obesidade, diabetes, aumento do colesterol e dos triglicérides.
As duas causas podem ocorrer simultaneamente. A doença também pode ter origens secundárias, como uso de medicamentos, doenças autoimunes e infecções. Recentemente, estudos identificaram que alterações na flora intestinal (microbiota) e predisposição genética também podem contribuir para o desenvolvimento de esteatose hepática.
É sabido que o consumo exagerado de álcool é um grande vilão para o fígado. A ingestão de grandes quantidades compromete o funcionamento do órgão durante o processo de metabolização alcoólica. O álcool é transformado em substâncias tóxicas como o acetaldeído, que danificam as células hepáticas, reduzindo a capacidade de oxidação de ácidos graxos.
Porém, a causa metabólica tem sido alvo de diversos estudos científicos e apresenta alta relevância atualmente. Em 2023, em uma publicação realizada no Journal of Hepatology, sugeriu que o termo Esteatose Hepática Metabólica ou Metabolic Dysfunction Associated Steatotic Liver Disease (MASLD) é mais adequado que a denominação Doença Hepática Gordurosa não Alcoólica (DHGNA). Segundo o estudo, a esteatose hepática metabólica está mais associada com a presença de uma disfunção cardiometabólica como hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes e obesidade) do que simplesmente à ausência ou ao baixo consumo de álcool.
Com o quadro de gordura no fígado, a resistência à insulina é considerada como o principal mecanismo etiológico. Quando a insulina não consegue atuar adequadamente, há maior liberação de ácidos graxos pelo tecido adiposo. O órgão, por ter função central no metabolismo da glicose e das gorduras, “capta” esse excesso de ácidos graxos que acabam se depositando no órgão. Além disso, um outro processo inicia-se para produção de gordura a partir de glicose (lipogênese), o que favorece o desenvolvimento do quadro.
Com a cronificação desse processo, há a progressão da doença para esteato-hepatite, também chamada de MASH (Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis), caracterizada pela presença de inflamação, edema e distorção celular. Nesse contexto inflamatório contínuo, macrófagos hepáticos são ativados e inicia-se a produção de citocinas que lesionam e causam danos aos hepatócitos.
Como tentativa de reparação, a produção de colágeno pelas células estreladas é estimulada, gerando alterações estruturais, entre elas a fibrose, que é uma fase avançada, com endurecimento do órgão, alteração da textura e aumento da pressão na veia porta, vaso mais importante da circulação hepática. Nesta fase, sintomas como fraqueza, mal-estar e fadiga, aumento do fígado, dor abdominal e icterícia (coloração amarela de mucosas e pele) podem começar a se manifestar.
Na fase inicial, a esteatose costuma ser assintomática. No entanto, quando existe a suspeita do seu diagnóstico, deve-se interpretar como um sinal precoce para estarmos atentos para que a doença não progrida para fibrose e cirrose. Nesses estágios, o prognóstico não é bom, podendo até ser indicado o transplante de fígado em casos terminais.
Quadro clínico
Esteatose hepática: frequentemente sem sintomas, primeiro sinal é a elevação de enzimas hepáticas e achados radiológicos em exames como ultrassom e tomografia
Esteato-hepatite (MASH): fraqueza, mal-estar e fadiga, sintomas inespecíficos e muitas não percebidos.
Fibrose: Aumento do fígado, dor abdominal do lado direito, sensação de desconforto gástrico e icterícia.
Cirrose: acúmulo de líquido na cavidade abdominal (ascite), varizes de esôfago com risco de sangramentos digestivos, alterações vasculares no abdome, icterícia e aumento do risco de evolução para câncer – carcinoma hepatocelular.
Diagnóstico
Ultrassonografia de abdome
Exame simples e eficiente, com boa sensibilidade. Geralmente, o diagnóstico é um achado. de imagens que mostram alterações na textura e aumento do fígado, dependendo do grau de esteatose. A descrição mais comum é aumento da ecogenicidade e atenuação acústica. Em pacientes obesos, a precisão do exame pode ser menor.
Exames laboratoriais de sangue
Avaliação da função hepática com dosagem de TGO, TGP, Gama GT, Fosfatase alcalina, coagulograma. Em casos duvidosos sobre a causa, anticorpos específicos para descartar doenças autoimunes e outras etiologias.
Elastografia hepática
Avalia o grau de fibrose com base na emissão de onda de cisalhamento, resultante de uma força aplicada. Valores elevados sugerem fibrose mais avançada.
Biópsia hepática
Não é realizada em todos os casos, por ser um exame invasivo e com riscos. Na maioria dos casos, o quadro clínico associado aos resultados dos exames laboratoriais e imagem permite fazer o diagnóstico presuntivo. A biópsia é indicada quando há dúvidas no diagnóstico e em casos avançados na suspeita de fibrose e cirrose.
Tratamento não medicamentoso e mudanças de hábitos: é a melhor forma de tratar a esteatose e evitar sua progressão.
Mudar os hábitos alimentares: dieta hipocalórica equilibrada, com preferência por alimentos naturais e minimamente processados, evitando refeições ricas em açúcar e gorduras.
Exercícios físicos: a prática regular de exercícios físicos ajuda na perda de peso; a redução de 7 a 10 % do peso corporal reduz a inflamação e índice de gordura no fígado, além de diminuir a resistência insulínica.
Cessação do consumo de álcool: é fundamental para os pacientes que já têm inflamação e fibrose. Ao suspender o álcool, a esteatose pode ser reduzida e até mesmo revertida. Além disso, há melhora no controle da pressão arterial, glicêmico, sono e saúde mental.
Controle das doenças crônicas: o tratamento adequado e controle de condições pré-existentes, como diabetes, dislipidemia (colesterol e triglicérides elevados) e hipertensão arterial, são pilares importantes na prevenção de complicações.
Medicamentoso
Medicamentos como metformina, pioglitazona, análogos da GLP-1 reduzem a resistência à insulina e melhoram o controle glicêmico. Podem ser utilizados em paciente com esteatose hepática associada a diabetes e obesidade, embora não sejam medicamentos específicos para o tratamento da gordura no fígado.
Recentemente, nos Estados Unidos, o medicamento resmetirom foi aprovado como primeiro tratamento específico para pacientes com esteatose hepática avançada. Trata-se de um fármaco que atua como agonista do receptor Beta do hormônio tireoidiano. Esse receptor, presente em células hepáticas, age aumentando a capacidade de metabolização de gorduras, melhorando a inflamação e fibrose.
O medicamento, embora seja promissor e tenha mostrado resultados positivos, é caro e muito pouco acessível. O fato de avanços no tratamento de doenças ser uma feliz realidade, a forma mais inteligente, saudável e sustentável de evitá-las sempre será a conscientização e a proatividade com o cuidado do nosso próprio corpo.
Cuidem-se! Para evitar agravamento de quadro, o melhor caminho são os exames preventivos e os de rotina.
Nos vemos na próxima coluna!
Referências:
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