Por Renan Pereira e Lígia Menezes
A figura paterna vem ganhando novos contornos nas últimas décadas. Mais do que ajudar, espera-se que o pai participe ativamente da criação dos filhos. E o ator Julio Rocha sabe bem disso. Pai de três, José (5), Eduardo (4) e Sarah (1), frutos do casamento com a influenciadora Karoline Kleine, o ator faz questão de assumir sua responsabilidade no dia a dia da família e de mostrar que paternidade se constrói na prática, com rotina, cuidado e conversa.
Prestes à retornar à televisão na próxima novela das nove da Globo, “Três Graças”, de Aguinaldo Silva, Julio agora prepara sua rotina – e abre para AnaMaria como tem sido esse processo.
Julio, você compartilha bastante nas redes sua relação com seus três filhos. Mas pode nos contar um pouco sobre seu pai? Como foi sua relação com ele?
Meu pai foi o homem mais presente que eu já conheci. Ele não falava sobre presença, ele era a presença. Enquanto os pais saíam para o happy hour, ele vinha pra casa. Enquanto outros viajavam sozinhos, ele levava a gente junto. Não me lembro de um filme, uma peça, uma queda de skate, uma pipa, uma pescaria… sem ele. Ele era culto, espiritualizado, um homem de fibra. Sério, preto no branco, de palavra. Mas com uma alma que entendia o invisível e um coração que sabia exatamente onde colocar amor, limite e fé. Foi ele quem me apoiou quando o mundo dizia “ser artista não é caminho”. Ele dizia “vai, revoluciona, seja você”. E eu fui, porque ele estava lá, sempre. Não há nada que eu tenha feito como artista que não tenha o dedo, o olhar ou a coragem que ele me ensinou. Ele me formou no silêncio e me libertou com confiança. Foi ele quem me ensinou o poder da liberdade. E isso moldou não só o pai que eu sou, mas o homem que continuo sendo.
Seus filhos têm consciência ou dimensão de que você é um ator famoso? Eles já entenderam isso?
Eles sabem que o pai “aparece”, que tem gente que me para na rua… e eu não faço uma foto sem que eles entrem no meio com sorrisão (risos). Mas o olhar deles me lembra todo dia que a fama real acontece dentro de casa. Eles me veem muito mais como quem carrega mochila, quem troca fralda, quem conta história antes de dormir, e só depois como alguém que tem fama. Eles sabem que existe um ator, mas me reconhecem muito mais como pai.
Vocês passaram por uma perda gestacional recentemente. Pode nos falar sobre isso e, principalmente, como as crianças lidam com esse tema?
Perda gestacional é a perda de um filho. E nós não nos colocamos no papel de vítimas. Fomos contemplados com esse bebê por um tempo curto, mas foi um sonho, cheio de amor, que nunca será esquecido. Oramos com nossos filhos, choramos com eles e superamos. Explicamos com verdade e simplicidade. E eles responderam com amor e espiritualidade. O José me perguntou “ela tá com Jesus, né?”, e eu respondi “tá, e com o vovô também”. Eles deram sentido ao que a gente só conseguia sentir como dor. A criança tem esse poder de espiritualizar sem teorizar. A perda nos uniu. E o amor continuou crescendo.
E como manter a boa comunicação e o clima de parceria entre família?
Primeiro, ouvir mais do que responder. Segundo, entender que a vida não gira em torno de dinheiro ou coisas materiais, mas de amor e afeto pelo que realmente importa no mundo. O sucesso está da porta de casa pra dentro e não pra fora. Quero ser promovido e ganhar aumento em casa, não na rua. E isso faz você ter sucesso fora de casa também. A família é o nosso maior projeto. Eu não corto meus filhos. Eles são livres. Não impeço quase nada. Eles estão aprendendo sozinhos a maioria das coisas e automaticamente se tornam nossos professores. Temos uma missão, dar aos outros o que temos de melhor, e isso volta para nossa família, para nós mesmos. Meus filhos ficam felizes quando estão fazendo alguém em casa também feliz. A conversa é franca. Nunca os ignoramos.
Você volta às novelas em breve. Por isso, ficará mais ausente no dia a dia. Como está sendo isso? Já falou com as crianças?
Voltar às novelas é especial. E voltar numa novela das nove, com texto do Aguinaldo Silva, depois de 11 anos longe desse horário, é um recomeço com gosto de missão. Mas aqui em casa tudo é diálogo. Sentei com eles e disse “o papai vai aparecer menos no café da manhã… mas vai estar do outro lado da tela contando histórias que tocam famílias como a nossa”. Eles entenderam. E a gente criou formas de manter a conexão, áudios secretos, códigos de carinho, vídeos durante o dia. Para estar junto, não precisa estar perto.
Como você se define enquanto pai? Que tipo de pai você se considera?
Eu sou um pai disponível. Emocionalmente, fisicamente, espiritualmente. Sou líder. Sou o pai que tá lá pra errar e consertar. Sou o pai que aprende, que chora, que grava vídeo, que ouve desenho, que dança, que ora. E que repete, sem medo, “eu te amo”. Não quero ser o pai que fez tudo certo. Quero ser o pai que os filhos lembram com verdade, “ele tava ali, do meu lado, sempre”.
Você acha que ter três filhos atrapalha os momentos íntimos do casal? Como vocês lidam com isso?
Atrapalha… se você acha que intimidade é só físico. A gente aprendeu a encontrar o outro no meio da rotina. Um olhar na hora do banho das crianças. Um toque na cozinha. Uma conversa no escuro com todos dormindo no meio da cama. Casamento com filhos não é feito de data marcada. É feito de gestos escondidos que só os dois percebem. A intimidade mora na parceria. E o desejo cresce onde há admiração. Criativamente, evoluímos muito. Encontramos de madrugada vários esconderijos… (risos). Eu e a Karol, a gente se diverte muito.
Existe um debate sobre como influenciadores expõem e “monetizam” as crianças nas redes sociais. Você sente que monetiza a ideia de família perfeita? Como trata essa questão?
Sou conhecido por viver e mostrar a realidade, o caos. A monetização é uma só, tocar famílias, vidas, pais… transformar histórias, desbloquear sentimentos, iluminar almas. O resto é tentativa de censura velada. E eu e minha família somos livres. Nunca vendi capa de revista com minha família. Comecei há seis anos a mostrar a paternidade em rede nacional, o caos, as dificuldades, os erros, os acertos, as dúvidas, as inseguranças. Nunca vesti minha família de “perfeita”. Nunca me vesti de “pai ideal”. Enquanto muitos vendem perfeição em datas comemorativas, eu estou há 365 dias por ano entregando o que vivo, inspirando, curando, cicatrizando, alegrando. Recebo milhões de mensagens. E a contrapartida disso é que a monetização vem, e vem forte. Hoje, meus filhos, se divertindo, como quem pinta, desenha, bagunça, interage com o pai, estão também monetizando. Mas com alvará, conta e aplicação. E o melhor, com legado.
Eles vão olhar pra trás e dizer “eu nunca trabalhei. Eu brinquei com meus pais. E ainda deixei rastro no mundo fazendo isso”. Eles vão aprender que é dando o que se recebe. Que o trabalho deles é missão, dar aos outros, inspirar os outros, entreter os outros. E isso vai ensinar eles a serem felizes, livres e prósperos.
Para você, há diferença entre o papel de pai e o de mãe?
Ah, eu vejo diferença sim. Mas não em importância, enxergo em energia. A mãe é o início. É corpo, leite, intuição, templo. O pai é o chão. É o limite com abraço, a voz que embala e corrige, o espelho emocional. A mãe mergulha. O pai ancora. E quando os dois se respeitam, o filho voa.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1481, de 8 de agosto de 2025). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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